Um eventual espanto pode ser um frequente espanto

Reflexão após uma aula de Rubens Espírito Santo no atelier de Felipe Goes

O nome do arco é vida; sua obra, a morte.

Quem se esquivará do fogo que não se apaga?

Heráclito

Uma consciência sem escândalo é uma consciência alienada.

Bataille, A literatura e o mal, pág. 191

A seguir, exponho duas traduções diferentes do mesmo trecho de Aristóteles:

Os homens, no início como agora, encontram no assombro o motivo para filosofar, porque no início eles se maravilhavam diante dos fenômenos mais simples, dos quais não podiam dar-se conta, e depois, paulatinamente, se encontraram diante de problemas mais complexos, como as condições da Lua e do Sol, e as estrelas, e a origem do universo.

Aristóteles, Metafísica 1, Capítulo II, §1

Foi, com efeito, pela admiração que os homens, assim hoje como no começo, foram levados a filosofar, sendo primeiramente abalados pelas dificuldades mais óbvias, e progredindo em seguida pouco a pouco até resolverem problemas maiores: por exemplo, as mudanças da Lua, as do Sol e dos astros e a gênese do Universo.

Aristóteles, Metafísica 1, Capítulo II, §1, Tradução de Vinzenzo Cocco

Pode-se ver que, de uma tradução para a outra, a palavra assombro foi deslocada para a palavra admiração. Em grego, as duas se assemelhavam. Ambas vêm da palavra thaumázein, (θαυματηειν) cujo radical é thaumas, originário do nome de Taumante, pai de Íris, mensageira dos deuses. Sócrates dizia que esta genealogia não é à toa; quem se maravilha, ou quem fica espantado por algo (o filósofo por excelência, para ele), pode-se permitir estar num mundo intermediário entre humano e divino. Descartes também coloca a admiração como uma paixão, e, por isso, tem o poder de transformação:

[…] a admiração é a primeira de todas as paixões; e ela não tem contrário, porquanto, se o objeto que se apresenta nada tem em si que nos surpreenda, não somos de maneira nenhuma afetados por ele e nós o consideramos sem paixão.

Descartes, As paixões da alma, II, art. 53. A admiração, pág. 252

Heidegger atribui extrema importância ao espanto:

No espanto detemo-nos. E como se retrocedêssemos diante do ente pelo fato de ser e de ser assim e não de outra maneira. O espanto também não se esgota neste retroceder diante do ser do ente, mas no próprio ato de retroceder e manter-se em suspenso é ao mesmo tempo atraído e como que fascinado por aquilo diante do que recua. Assim o espanto é a dis-posição na qual e para a qual o ser do ente se abre.

Heidegger, O que é isto — a filosofia?, Edição eletrônica Grupo Acrópolis, pág. 12–13.

Estou apavorado diante dessa pintura.

Felipe Góes

O atractivo e o pavor vão de mãos dadas

Louis-René des Forêts, Poemas de Samuel Wood

Acredito que pintura, antes de tudo, é um modo artificial para causar, em quem pinta, diversas sensações que não seria causadas de modo natural. Em particular aquelas sensações que nomeamos espanto, assombro e, como pode-se ver agora, admiração, são fundamentais para que a pintura exista — caso contrário, ela não seria o que ela é: artificial, i.é, não natural, pois raramente alguém sozinho e inexperiente causará espanto em si mesmo. O espanto que pode ser ocasionado pela pintura pode ser encarado, talvez, como um espanto errado; acredito, porém, que ele é muito necessário para espantos que estão por vir — inclusive através da pintura — o espanto, quem sabe, proveniente da consciência de estar vivo.

A pintura então me parece um acordo entre aquilo que sai de dentro de alguém e outrem — que quer existir; assim, ela é um pedido de ajuda que exige o surgimento de novas coisas, dantes impossíveis, para a continuação de sua existência — ou melhor, para que sua existência seja, de fato, maior do que aquela de quem quer acordá-la, com o estalido da queda de um alfinete no chão, de seu sono — caso contrário, tanto ela quanto pintor continuarão dormindo sem saber — enganados pela atividade de adicionar tinta à tela.

Neste sentido, pintura ou palavra ocultam-se igualmente — à medida em que as cutucamos, elas nos cutucam de volta e pedem nada menos para que mudemos não só a roupa que vestimos — mas a pele sobre a qual nos revestimos:

[…] Maria gosta de morder o rabo da palavra para ela dizer o que não diria normalmente num estado pacífico de ser palavra, a palavra mordida diz de um lugar outro: filha da puta. O que é a palavra filha da puta? É a palavra que não está para mim, nem para ela mesma, vive num lugar inexpressivo — a palavra inexpressiva diz: é agora a hora de morrer, sem morte não há o poema, todo poema é um sacrifício da escrita, um poema está para mim, como eu estou fora de mim e tenho que me achar, me achar é meu legado, me achar porque nasci sem luz, à luz me guiará até a saída deste labirinto, o que me falta guiará-me de volta de onde nunca saí.

Rubens Espírito Santo, Conto de Natal em 10 textos sobre a Deontologia da Língua Portuguesa

Rubens não só sabe dessa necessidade mas é esta necessidade viva — seu corpo é uma mutação constante de estados — nunca é o que queria ser — mas transforma-se em outrem — a pedido de si mesmo — a hora de morrer é a mesma hora de viver — seus poemas e desenhos são vestígios das roupas que ele precisou trocar para obedecer o pedido de ajuda que sua vida faz para continuar na — já não mais só sua — escandalosa e plena existência para sempre incompleta.

CCS, 1 de março de 2018

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