Subir na árvore da linguagem é sempre permitido mas nem sempre possível

A modernidade é um fenômeno que começou a ser introduzida em diferentes áreas em diferentes épocas; como Danto cita, na filosofia esse movimento começou mais cedo que nas demais. Descartes, em 1650, com a máxima Penso, logo existo, introduziu o sujeito como responsável por sua história. Acredito que antes seria Deus pensa, logo eu existo. Em 1848, Baudelaire define a modernidade na literatura, tendo a bola cantada pelo Sturm und Drung alemão; ele mesmo e Flaubert são o símbolo disso na prosa e Walt Whitman, com seus pioneiros versos livres, na poesia. Em música, isso aconteceu mais ou menos na mesma época, e, em Debussy dá pra ver as nuances desta liberdade quando ele coloca o sujeito que executa a música acima de sua própria estrutura: por exemplo, sua música dificilmente será enquadrada em algum modo clássico de classificação (como, quando se diz, esta música está em sol maior!). O impressionismo nas artes visuais tomou rédeas deste pensamento com pinceladas livres que queriam apenas ser pinceladas, e não mais imitação de uma visualidade exterior a ela.

Com esse tipo de pensamento, o homem passou a ser relativamente autônomo, a ter uma responsabilidade sobre sua existência que não era mais completamente atribuída a um Deus exterior a ele. Este movimento foi aos poucos sendo estimulado: um século depois, um documento histórico muito importante, a Declaração dos Estados Unidos coloca, pela primeira vez na história, a felicidade humana como um direito fundamental:

Todo homem é criado igual, que todo homem é dotado pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes direitos se encontra o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Que para assegurar esses direitos é que o governo são estabelecidos entre os homens, obtendo seus justos direitos do consentimento do povo governado.

O período que deu bases para todas essas mudanças foi o Iluminismo, período histórico fundamental para Diderot teorizar sobre o gosto, bem como para o pensamento de Hegel e, grosso modo, como uma reação, o surgimento do pensamento romântico. Nesta época foi quando o artista começou a criar autonomia da sociedade, pois não tinha mais um papel social — a arte começou a ser uma esfera à parte da sociedade.

Essa introdução é necessária para aquilo que Danto diz sobre arte e a implicação do fim de um determinado modo de apreendê-la. Hegel, numa época não tranquila como a da Revolução Francesa — não podemos esquecer que foi nesta época em que o Rei, símbolo de Deus na Terra, foi decapitado! a intelectualidade começou a ser contraposta à espiritualidade, cujos valores estavam em profunda decadência -, em seus Cursos de Estética, proferiu que o espírito não estava mais na arte, mas havia migrado para a filosofia. Esta frase tem o seguinte contexto: Hegel esperava que, assim como a França havia sido berço para uma Revolução política, a Alemanha — inclusive nesta época, ainda adepta ao Antigo Regime — pudesse ser o berço de uma revolução espiritual — e a arte, nos moldes como estava sendo feita, para Hegel, não era mais apta a orientar a humanidade neste sentido. É como se a arte havia se tornado um objeto independente do fenômeno arte que ela sempre tentou apreender:

Não é difícil ver que nosso tempo é um tempo de nascimento e trânsito para uma nova época. O espírito rompeu com o mundo de seu ser-aí e de seu representar, que até hoje durou; está a ponto de submergi-lo no passado, e se entrega à tarefa de sua transformação. Certamente, o espírito nunca está em repouso, mas sempre tomado por um movimento para a frente […]. Do mesmo modo, o espírito que se forma lentamente, tranquilamente, em direção à sua nova figura, vai desmanchando tijolo por tijolo o edifício de seu mundo anterior.

Sob esta perspectiva, fica um pouco mais clara a loucura de Hölderlin — que inclusive era amigo de Hegel -; este, ao criticar o modo de vida moderno, se voltava, sem reservas, aos deuses da Grécia antiga:

Mas ai! A nossa raça, sem divino, vagueia na noite,

E vive como no Orco. Presos só ao próprio labor,

Na forja bramante cada um se ouve só a si próprio,

E com braço possante muito trabalham os bárbaros,

Sem descanso, mas sempre e sempre estéril,

Como as Fúrias, é a labuta desses homens.

O que eu quero mostrar com tudo isso aqui é que o projeto moderno/romântico de tomar o próprio homem como matéria prima a fim de fundir sua subjetividade com a objetividade do mundo que lhe é exterior parece um projeto atemporal e não tem como ser esgotado, pois se parece com algo sempre revolucionário; digo isto pois um profundo mergulho no indivíduo e a difícil tarefa de fazer uma entrega completa deste mergulho a algo tão objetivo como a linguagem, que é maior do que qualquer subjetividade, traz à humanidade algo universal; este universal não se dá por ser algo que todos que podem viver, mas porque traz algo intacto, não distorcido, algo imaculado pela difícil realidade que é não só a moderna, mas qualquer. A frase Conhece-te a ti mesmo, assim conhecerá os deuses tem mais de 200 séculos e nunca foi contradita.

Esta manobra de fusão é frisada por Adorno como sendo algo que raríssimos homens foram capazes de fazer. Acredito que ela é um projeto inacabado, e se encaixaria perfeitamente no vazio que a contemporaneidade promete tanto ser. Acredito que ela tem relação com aquilo que René Char escreveu sobre os homens das cavernas, que, ao pintarem gados nas cavernas Lascaux, ensinariam muitas coisas aos homens que empreendem viagens espaciais no século XX. O motivo disto parece estar na relação que sujeito trava com objeto:

O animal pintado participa secretamente da substância do original. Quem é capaz de tomar o controle da imagem pode conseguir colocar o original sob o poder, quem pode aquietar a imagem apazigua igualmente sua imagem primordial.

Vejo que o homem das cavernas, ao pintar uma imagem do gado que pretende caçar, a partir de sua interioridade, estabelece realmente uma relação mágica com ele; a pintura não era um meio de representá-lo, mas um meio que permitirá a existência de uma relação entre homem e animal. Mesmo que isto tenha acontecido séculos atrás, isto não é algo que se deixa apreender por nomes como antigo, moderno ou contemporâneo; acredito que este tipo de relação é buscada pelo homem em qualquer período da história.

Eu ouso dizer que vejo em Rubens a manobra que Adorno fala ser praticada por poucos homens; isto não se dá só em seus escritos, mas em qualquer esfera; para dar apenas um exemplo, vejo fortemente um ato de abrir mão de si para que a linguagem siga seu caminho quando Rubens escreve, no comovente texto Impressões da Argentina, a frase

[…] Sem jogar fora você do discurso não tem discurso, o discurso é um corte, uma afronta, uma despedida, o que quero dizer não importa nunca no discurso, eu me importo pouco no que quero dizer, perder o fio da mesa, jogar fora, cortar, estripar, decepar, arrancar, decapitar, afronta afronta, perdi a coisa na ânsia de descrevê-la, ela não quer ser descrita, quer apenas ser, acontecer como um orvalho, uma protuberância qualquer.

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Para finalizar, há esta frase que ouvimos e dizemos muito frequentemente: acredite em você. Sinceramente, eu não sei se posso dizer que acredito puramente em mim, mas eu posso afirmar que acredito profundamente em algo, porém, que eu não sei exatamente o que é.

Mas, a partir do que Adorno diz, do que a história diz, do que Rubens diz, ao almejar uma fusão entre sujeito e objeto, posso afirmar que este algo em que acredito não precisa necessariamente ser identificado com as letras que constituem o mim, já que o sujeito eu quer se fundir ao objeto da frase, seja ele qual for; ou seja, eu posso dizer eu acredito no canto da árvore e posso almejar que este canto tome meu corpo emprestado, dando-me um pedaço de seu canto, fazendo-me cantar: sendo, portanto, sujeito e objeto concomitantemente — não diferindo o eu dele — mesmo que por um instante, mesmo que em sonho — toda essa perspectiva história me dá a chance de acreditar que posso, um pouquinho, ser como uma árvore é.

CCS, 9 de novembro de 2017, em Extrações #2

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