Sobre o filme Eutanásia (Finlândia, 2017) de Teemu Nikki + Confissão

Com ajuda de Søren Kierkegaard

CCS, 22 de abril de 2019

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Veijo, personagem principal de Eutanásia

Ao descobrir o destino, o gênio revela sua potência de força original, e em seguida ele revela, por sua vez, sua impotência. Para o espírito imediato que o gênio sempre é, o destino é o limite. […]

O gênio se angustia numa hora diferente dos homens comuns. Esses só descobrem o perigo no instante do perigo, até então se sentem seguros, é uma vez passado o perigo estão seguros novamente. O gênio está mais forte que nunca no instante do perigo, nesse momento tremendo em que ele precisa ter uma conversa com aquele grande amigo desconhecido que é o destino. Talvez a maior de suas angústias se de no momento posterior, porque a impaciência da certeza cresce sempre numa proporção inversa à certeza da distância, já que sempre há mais a perder à proporção que se está mais próximo de vencer, mas também porque a lógica do destino não tem lógica nenhuma.

Søren Kierkegaard, O conceito de angústia, pág. 107–110

Penetrar no filme Eutanásia parece ser algo precedido pelo tropeço: o filme promete que, ao passo que você caminhe em suas entrelinhas, não irá caminhar tranquilamente e terá que se acostumar com o estranho: a tropeçar continuamente em algo opaco e maior que suas interpretações — apequenadas perto do que que realmente Eutanásia quer dizer. Assim, penetrar neste filme parece deparar-se com o fato de que é impossível penetrar nele — caso você não seja não só penetrado por ele primeiro — mas esteja estilhaçado e consequentemente esteja preparado a quebrar ao menos um pouco da forma de suas ideias.

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Isso não quer dizer que Eutanásia seja um daqueles filmes que sempre têm algo novo no enredo, que nos fazem chegar ao fim do filme vencidos pelo cansaço ao nos apresentar sempre alguma peripécia mirabolante e inabitual. Estas soluções, por serem inúmeras, só o são assim para encerrarem-se umas nas outras a fim de tentarem acabar com o tédio do qual elas mesmo são resultado. Este tipo de artifício usado para resolver uma narrativa ou para deixá-la compreensível é chamado deus ex-machina. Este termo surgiu na Grécia e era literalmente “deus surgido da máquina”, que era quando surgia um deus no meio de uma peça de teatro pronto para resolver as pontas soltas da peça. Porém, sua aparição, por ser externa à peça, era artificial.

Em Eutanásia, isto não acontece. Por exemplo, não há uma explicação do porquê Veijo faz suas ações nem do que ele é. Ele seria um justiceiro? um mestre? um louco? Apesar dele continuar sendo como todos no filme, um ser humano, suas ações sobre-humanas não são explicadas por alguma razão exótica. Nenhuma categoria parece dar conta de suas ações que, ao se colocarem num lugar radical de não serem localizadas, paradoxalmente, se afirmam neste lugar suspenso, e a explicação delas se tornam elas mesmas — qualquer discurso paralelo a elas não faria sentido: sua obra está em seu corpo; assim como Kafka ou Mallarmé quiseram, em vão, queimar sua obra, Veijo quis, em vão, queimar seu corpo.

Fiquei muito tempo tentando achar cenas no filme que provassem o que estou tentando dizer; sinto, porém, que não tenho aptidão para tirar uma cena sem tirá-la de seu contexto. É como se cada parte do filme dependesse de sua totalidade.

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As resoluções apresentadas no enredo não são resoluções pois não “relaxam” a trama, tampouco querem se satisfazer como quem come a sobremesa no domingo e deita no sofá; são reconciliações que, por buscarem conservar o mistério e não a solução deste, permanecem abertas ao conflito.

Na verdade, há uma palavra em alemão que acredito mostrar esta situação: Aufheben ou Aufhebung. Ela não tem equivalente no português, mas é traduzida como suprassunção. Seu significado engloba ao mesmo tempo noções contraditórias, como elevar e resolver; aumentar e aniquilar; suspender e conservar. É como se ela pudesse ser uma mistura da fórmula tese — antítese — síntese; não à toa, esta palavra é usada por Hegel. Estou pegando-a emprestado aqui pois ela parece mostrar o mesmo que o filme Eutanásia: Veijo só resolve seus conflitos ao elevar a dificuldade a que impõe a si mesmo. Como não entendemos a complexidade desta dialética, dizemos que ele está em suspensão, o que também permite dizer que ele está próximo de algo que não se insere em nenhum nome: o imediato [1], como quis Hölderlin, e sua violência. Suas ações, que não se utilizam de um manual de regras, tampouco são aleatórias, mas são medidas pela imediatidade — além de medidas, são por ela rigorosamente determinadas. A possibilidade da liberdade não consiste em poder escolher o bem ou o mal. Um tal disparate não prossegue nem das Escrituras nem do pensamento [2]. Mas sua possibilidade consiste numa liberdade tolhida, enredada, obrigada a ser cumprida; a levar a cabo o ser-capaz-de, numa desgraçada tarefa de aceitar a morte apenas como morte de subterfúgios e, assim, trazer a escuridão da noite para esturricar o rosto num pico de sol de meio dia.

Talvez a noção que melhor possa encostar nesta ação-discurso seja o de uma fé indefectível em seus sentidos — ou melhor, em sentidos que não sejam exatamente seus (como os cinco que todos têm: paladar, olfato, visão, audição e tato), mas num sentido exterior que ele rouba — confia — impregna a seu próprio corpo, o que seria equivalente a dizer que a velocidade com que o vento sopra ou o olhar entristecido de um cachorro, por exemplo, é um sentido a lhe guiar — e por ser tão distante a nós, nos faz parecer “sem sentido” — ou “estranho” — estranho aqui no sentido literal da palavra como algo não familiar. Este acesso a novos sentidos lhe abrem portas de acesso ao espírito — ou o contrário — e sua angústia, aqui não é mais a de não-poder-fazer, mas a de poder: a de uma imortalidade em vida; quanto mais a porta se abre ao espírito — acordado de seu sono –, maior o acesso à angústia.

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Esta extrapolação de limites nos leva à cena final, que nos mostra aquilo de que fugimos a todo custo: a impossibilidade de se limitar por qualquer impossibilidade. Veijo não consegue se livrar de sua vida nem mesmo ao tentar dar cabo a ela — sua tentativa de suicídio, por mais estranho que possa parecer, conceitualmente não se identifica com aquilo que representa um suicídio — não é uma fuga de sua vida — mas é um adentramento nela por outra via — a extrema [3] — a da entrega total; não é um afogamento pela culpa, mas sim a rara posição de quem não leva mais culpa alguma — supostamente cometendo um crime, revela-se não ser culpado, mas pelo contrário: inocente [4], mesmo que tenha chegado perto do núcleo impossível de alguém que fez o que tinha que fazer nesta vida e já está na sobrevida — no além — e é presenteado — ou amaldiçoado — pela contradição de ter de viver o além na terra — e pelo susto da encardida verdade de que a transcendência é, na verdade, imanente.

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Veijo sobrevive depois de atear fogo a si mesmo

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[1] O imediato é o suspenso […] a quem ocorreria a ideia de permanecer no imediato se este é abolido exatamente no mesmo instante em que o nomeiam, assim como um sonâmbulo desperta no mesmo instante em que seu nome é mencionado? Kierkegaard, O conceito de angústia, pág. 13

[2] Kierkegaard, O conceito de angústia, pág. 54

[3] Com uma boa dose de humor, o nome da “empresa” de Veijo é: Reparos e soluções extremas.

[4] Neste estado há paz e repouso, mas ao mesmo tempo há algo de diferente que não é discórdia e luta; pois não há nada contra o que lutar. Mas o que há, então? Nada. Mas nada, que efeito tem? Faz nascer angústia. Este é o segredo profundo da inocência, que ela ao mesmo tempo é angústia. Sonhando, o espírito projeta sua própria realidade efetiva, mas esta realidade nada é, mas este nada a inocência vê continuamente fora dela. A angústia é uma qualificação do espírito que sonha. O conceito de angústia, pág. 45

Apêndice — texto paralelo ao texto

Um texto paralelo: Confissão ou justificativa — última — de uma vez por todas — a ninguém — a mim — antes de mais nada

Já senti imensa vergonha por escrever meus textos e pela cisão que eles podem representar; Já pedi desculpas; Já quis nunca mais escrever; Já pensei que é tudo mentira e besteira, que eles não passam de uma carência incorrigível, medo da solidão e picuinha; Já me senti culpada por achar que estou fazendo errado — não de modo errado, mas que estou tocando nO Errado, no que não pode –; já senti que não devia fazer mais, inclusive por sentir extremo prazer nisto; Já fui atacada pela sensação de que eles não pertencem a mim, de que estão distantes de mim, de que sou uma farsante, — de que a radicalidade que eles proferem não faz parte da minha vida. Hoje vejo que talvez seja radical assumir essa diferença brutal, essa incapacidade de ser como eu gostaria de ser, essa falta de transparência, esse impasse eterno, esse eterno jogo de esconde-esconde entre burrice e inteligência, entre melhor e pior — e nunca saber qual é meu papel e porquê não consigo controlá-lo, ou, enfim, ser meu próprio diretor — neste violento enxame de personagens brigando para chegar à colmeia — ao palco de mim em que meu corpo — indirigível — se transforma.

Diante dos últimos acontecimentos — eu assumo a cisão — e assumo que, ao escrever, não quero fingir que não há falha — mas talvez esse seja meu modo de adentrar a falha, mesmo que isto leve muitos anos. O mundo pode dizer que escrever não tem sentido nenhum, mas minha ânsia intermitente em viver me grita que o sentido está naquilo que o próprio sentido encontrar lugar — e muitas vezes isto se dá escrevendo, não por ser isto a única coisa, mas talvez porque eu seja limitada demais para ver em todas as outras coisas. Para muitas pessoas, isto pode parecer silencioso e até confortável demais — para mim, o barulho das palavras é bem alto — mas confesso que, procurando por definições delas em tantos dicionários, eu realmente não sei mais o que elas são nem o que querem dizer; mesmo que pareça um pecado proferir coisas que realmente não vivo na pele, este parece um pecado menos grave do que não proferi-las de nenhum jeito — e já que não posso escapar do pecado, que meu pecado então seja o de tentar dizer — e que um dia isso se engalfinhe no pecado maior que é o de realmente dizer. Seja o que forem [as palavras], que seja do jeito que for para que seja humanamente possível suportar o tempo que leva — para que a ferida se abra — e me abra — aos poucos — de modo que eu não desista da vida que eu escondo — ainda — dentro de mim.

Quando consigo ter a força de perceber que, na verdade, ao conhecer Rubens e seu iminente perigo, eu aceitei abrigar minha vida fora de mim, vejo o quão protegida ela está fora do alcance de minhas mãos através do símbolo que é o Atelier — e, assim, eu não estou mais no poder de fazer o que eu sei fazer bem: destruí-la. Gostaria de poder perceber isso mais vezes — mas mesmo que ainda seja pouco, estes momentos são o que me empurram — neles, a culpa de qualquer coisa se esvai e me sinto aliviada e grata — e, ao perceber-me desabrigada, me sinto em casa.

Obrigada Rubens por devolver às palavras seu sentido verdadeiro; ao devolver à minha grande habilidade de perder, a habilidade de ganhar — e assim, tentar dar o amor que nunca tenho.

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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