A necessidade da solidão revela

sempre a nossa espiritualidade.

Kierkegaard, O desespero humano, pg. 86

Não há homem com a consciência pesada

que consiga suportar o silêncio.

Kierkegaard, O conceito de angústia, pg. 136

Um das coisas mais difíceis que tenho ouvido e também sentido a respeito da quarentena é a solidão compulsória. A dificuldade de se estar num cômodo sozinho, de se encarar como uma companhia. Por que esse medo nos assola, tanto ou até mais do que o medo de ficar sem coisas materiais, como comida ou dinheiro (ou mesmo por projetarmos este medo na possível perda de coisas materiais)? A solidão em si é tão palpável que é evitada como uma pedra no caminho; como algo que paralisa um ser humano.

Por que tanto medo? Por que não encarar este tempo como oportunidade para gozar da própria existência, para descobrir um mundo nunca antes olhado? Por que não descobrir uma nova forma de agir e de olhar sem tantas coisas a serem camufladas pelo que insistentemente chamamos de “correria da vida”? Agimos como um entrave ao nosso próprio desenvolvimento, cortando nossas próprias asas quando elas esboçam algum desejo de sair, proibindo-nos de voar. Afinal, o medo não está dissociado do desejo. Não sentir medo e sentir-se livre passa então a ser a coisa mais proibida. Como uma nova instituição religiosa e autocarcerária, estabelecemos que o novo pecado é estar em paz consigo mesmo.

Pergunto-me, sem parar, o motivo desse medo. Acho que, além deste medo, do qual eu também compartilho, mesmo que me esforce para não senti-lo, o que mais tenho medo é da continuação deste estado ao longos dos anos, como uma ditadura, pensando além do que é determinado pela quarentena. Pois do que vale viver, senão construir-se para a solidão, que independente de quarentena, existe e sempre existirá? Neste caso, perguntar-me-ia o que fiz de mim para ter tanto medo de mim? Acredito que a pandemia mundial do coronavírus é um termômetro que nos mostra o quão longe estamos de nós mesmos — para camuflar isso, combatemos a solidão como a um crime.

Eis-me, portanto, sozinho na terra, tendo apenas a mim mesmo como irmão, próximo, amigo, companhia.

Essa é a primeira frase do livro “Os devaneios do caminhantes solitário” de Rousseau, um livro muito diferente de seus outros livros onde, isolado, ele estuda-se, intensamente, a si mesmo. É curioso, e não é em vão, que grandes homens, pessoas que foram ao máximo de si, não estavam em multidões, mas sozinhos. Não é preciso ir longe: Rubens Espírito Santo é, muito provavelmente, o único exemplo que consigo ver disto hoje. Em plena crise, sua produção continua a mesma, bem como a circulação dela. Em plena quarentena, onde muitos veem-se apáticos, sua postura é a de estar em guerra.

Acredito que tal modo de estar sozinho não é uma fuga, não é distração, mas pelo contrário, é uma construção: ao construir-se como um mundo povoado por diferentes culturas, estar sozinho é o mesmo que estar em frente ao oponente; não o isenta de conviver com seus piores fantasmas, de ouvir as piores críticas, de enfrentar seus piores cenários — e atravessar piores quarentenas do que esta que superficialmente acompanhamos nos noticiários.

Talvez, em períodos de quarentena, em vez de encará-la como uma prisão, ou como apenas uma época chata de ser vivida, posso olhá-lo pelo avesso: ao me perguntar “o que sou eu afastado de tudo e de todos?”, em vez de tentar responder esta pergunta, devo tentar procurar o que posso ser além do que esperam normalmente de mim — ou além do que eu mesma espero de mim — o que posso ser quando não há quem me diga “não” ao que posso ser! Na verdade, o cruel é perceber que sempre, estando ou não em quarentena, podemos ser algo diferente do que se espera — mas talvez nossa época seja tão cega, que seja preciso uma guerra com medidas de segurança que nos forcem a olhar essa verdade tão indubitável — e o fato do inimigo ser tão invisível quanto eu me torno ao procurar na multidão o culpado pelo crime que eu mesma cometi!

CCS, 16 de abril de 2020

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