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Solaris, Tarkovisky

CCS, reflexão após filme Solaris de Tarkovisky, 7 de agosto de 2017

Vindo da ânsia do mar, pássaro despido com roupa de carne costurada na pele que só rasgando pra tirar; pássaro invertido que não sabe voar se não for pra trás; ensina-me a só saber rasgar o que tem na pele e não aquilo cuja área não pode ser adentrada pelo saber; ensina-me a plainar como urubu em vez de pular e continuar como pomba no chão.

Pátio de urubus

A morte espia

O segurança em sua cabine de controle

RES, Poema da cidade portuária de São Sebastião — 6 de agosto de 2017

Ler o que está escrito na superfície deste poema é relativamente fácil. Quero ler, porém, o que não está escrito, mas apenas levemente por ele margeado, ou sombreado. Que gado fora marcado com a impressão quente destas palavras? Qual é o negativo do poema? Não é o não-poema, porque dele é também feito o poema. Fico pensando que, se existe algum clima obscuro nele, talvez seja apenas para soprar aquilo difícil de se ver, ou para fazer uma névoa que ora encobre ora descobre aquilo que porventura não quero ver — que a vida é um sujeito e ela prevalece nas três linhas do poema: mesmo a linha que contém a palavra morte indica que ela está viva, que ela é o sujeito da frase, o vivo da frase, o que a permite espiar seja lá o que for; enquanto ela espia, a vida parece ser o que gira ao redor do poema todo — está no pátio, no urubu, na morte, no segurança, na sua cabine; mesmo que eu me force a não ver — ou mesmo que aumente sua área atuante achando que ela está mais presente que poderia; mesmo que tudo o que ela faz se limite por um discreto espia.

Para RES, tudo é sujeito — e também objeto -, tudo se move, seja vida ou morte, seja o que for, ele vai fazer com que seja o que for, mas que seja, enfim, algo que não nada; Para Tarkoviski, a mesma coisa parece se dar — o mar, a memória são igualmente seres dotados de ação — mais do que quem os tenta, em vão, entender. Se não podemos entender esses dois caras — tanto RES / Tarkovisky quanto Mar / Memória — que entendamos, ao menos, isso.

Os planejamentos incansáveis que Res faz são distantes a qualquer tipo de controle que possa impedir seu movimento caótico; eles tornam-se elementos calculadamente ordenados para que o não conhecido possa avizinhá-lo. Res nos ensina a ver que tudo é tão sujeito que seus planejamentos estão completamente sujeitos a alterações não previstas por ele. É isso, ela veio! Eu estava quase desistindo desse parágrafo. Mas o que não conseguia dizer já está dito pela palavra — que tardou mas chegou — sujeito:

Sujeito: Particípio passado do verbo sujeitar; expor, submeter, estar disposto a.

Sujeito: Função sintática na frase que determina a conjugação do verbo.

A decisão, determinação de algo recebe o mesmo nome que a completa sujeição desse algo.

Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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