Relato de um dia num lugar que não é a Bahia

Antes do decolar do avião, falta-me o ar ao imaginar estar a tantos quilômetros do atelier e de casa. Sinto minha cabeça ferver enquanto prevejo a sombra de um surto. Me imagino ligando para o Rubens para me acalmar.

Chegando aqui, certifico-me de que não preciso ligar para Res para falar com ele. Também não me sinto desesperada ou melancólica como achei que poderia. O méthodo — bem como a ficção — é uma máquina mortífera que irá te engolir vivo sem hesitações caso você não o deixe te penetrar para que sua engrenagem funcione com as suas próprias dentro do seu corpo — ele precisa estar dentro de um corpo para que este cresça com ele, do contrário se estagna; — até que não haja distinção entre natureza e ficção — entre vida e morte — entre trabalho e criação — como vemos em RES.

Escrevo, ando para lá e para cá com meu mini caderno de capa dura da Daiso — um que pretendo comprar mais — e fico feliz ao ver que a inflamação da minha mão, cuja existência eu desconhecia, está diminuindo; me enriqueço ao ler na edição de bolso dO Mito de Sísifo do Camus como ele é apaixonado por Kierkegaard; ao vê-lo falando da verdade inalcançável sobre a qual Aristóteles falava — e com a qual vi uma relação no último texto de Res, que ainda preciso tentar discorrer sobre; fico feliz ao reconhecer nele tantas coisas que sinto naqueles dias que são como compartimentos secretos — instaurados dentro de outros dias — guardando tesouros proibidos e os revelando à luz do sol; fico em paz ao me lembrar que preciso escrever o texto sobre o Curso do Méthodo de quarta e de como me sinto estranhamente preenchida e simultaneamente esvaziada na presença de Rubens, como se ela me roubasse tudo e assim me devolvesse todo o ar que não respirei ao longo do dia — e transborda num gozo de instante — eternizando-o ao inutilizar o sentido de qualquer passado ou futuro. Não me sinto em dívida por esta necessidade de escrever este texto — nem sinto nela um peso — mas sinto nela um piso para assentar meus pés que insistem em não parar corretamente no chão — como se ele fosse a porta de entrada da minha futura casa. Tento por alguns minutos, inutilmente, assistir algo na televisão, tomo banho de banheira e impreterivelmente durmo às dez da noite.

Num sistema chamado “all incluse” (ou seria “all inclusive”?), aqui pode-se pedir caipirinhas, bolos e snacks a qualquer momento. Há carrinhos de chopp gelado. Definitivamente é estranho e, até agora, não pedi nada a não ser um suco de abacaxi. Não tenho vontade de criticar meus pais por esta viagem — antes, suspeitaria ou acusaria alguma hipocrisia por eles estarem aqui. Hoje vejo que é coerente, mesmo quando parece não ser. Do mesmo jeito que as constantes caixas de som por aqui — há música em qualquer lugar. Há lugares que ressoam duas músicas diferentes. Apesar de absurdo, não há qualquer rastro do absurdo nisso — mas sim a completa normalidade da ausência de vazio que qualquer pessoa procura, inclusive ao viajar.

Sinto-me, sem saber porque, um tanto envergonhada ao passar pelas mesas imperiais de café da manhã — e me satisfaço rapidamente com um pão preto, um ovo e um café. Tento me convencer de que poderia comer qualquer coisa que não como diariamente, mas ainda assim não consigo. Quase não vi vista mais bonita que a garçonete Ana, negra e baiana do restaurante Ki-mukeka, que dizia “badejo” como se desse para tocar a pronúncia da palavra — e ela, a palavra, estivesse se espreguiçando na areia. Ao fugir de crianças, caixas de som e madames esperneantes — ou até mesmo, para minha surpresa, no meio de tudo isto junto — inebriada sem ter bebido “drinks” do bar na piscina — escrevo este texto como se estivesse abraçando um amigo distante — e sinto-me feliz ao poder ouvir o grito mudo de meu coração encharcado.

CCS, São João da Mata, 6 de setembro de 2019

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