Sobre o filme Adam’s apple (Entre o bem e o mal) de Thomas Anders Jensen (Dinamarca), 2005

CCS, 28 de março de 2019

No filme Adam’s apple, Adam é um neonazista que é incubido de fazer um serviço comunitário numa igreja. Lá, ele encontra o pároco Ivan, e eles estabelecem que sua única tarefa é fazer um bolo de maçã com as maçãs da macieira da Igreja. Desde então, o crescimento das maçãs da árvore passa por todo tipo de impedimento:

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Infestação de corvos
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Infestação de larvas
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Árvore é atingida por um raio na tempestade

Todo os impedimentos, porém, são negados por Ivan, o pároco da Igreja, que não deixa com que nada lhe tivesse influência negativa, de modo que quase todos da cidade lhe julgassem louco. Nem mesmo o tiro que levou no olho fá-lo desistir — este tiro, inclusive, o salvou de um tumor no cérebro que o mataria em sete dias.

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Ivan após ter saído do hospital

A posição de Ivan frente à vida e certos acontecimentos atingem lentamente a postura descrente de Adam. A bíblia, colocada estrategicamente em seu quarto por Ivan, sempre que caía no chão, lhe mostrava a mesma página, o que lhe chamou atenção:

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Cena do filme , de Anders Thomas Jensen, 2005

O livro de Jó conta a história de um homem honesto e reto cuja vida foi, através da deliberação de Deus, interferida e tentada por Satanás até que sua tragédia total fosse instaurada; lhe foram tirados saúde, bens e até mesmo paz. Após estar enfermo e em sofrimento, Jó, em versos de aguda poesia questiona sobre sua existência — e consequente miséria:

Por que se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus o encobriu? (3: 1)

Nunca estive descansado, nem sossegado, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação.

Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que prolongue a minha vida?

É, porventura, a minha força a força das pedras? Ou é de cobre a minha carne? Está em mim a minha ajuda? Não me desamparou todo auxílio eficaz? (6:11–13)

Há, porventura, iniquidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar dar a entender as minhas misérias? (6:30)

Elifaz, um dos amigos de Jó, ao exortar que ele busque a Deus, diz:

EIS QUE BEM-AVENTURADO É O HOMEM A QUEM DEUS CASTIGA; NÃO DESPREZES, POIS O CASTIGO DO TODO-PODEROSO. (5:17)

Isso me lembra a violência da frase que ouvi ontem num táxi com Rubens — frase essa que, como se me pegasse pela gola da camisa, ergueu-me do fundo de um poço de subjetividade. Paramos em um farol e um homem, sentado em uma cadeira de rodas e sem o olho esquerdo, nos disse:

Eu só não me mato na frente daquele ônibus porque Deus me prometeu uma vitória, e eu não vou morrer enquanto não pegar esta vitória.

Às vezes, em angústia, me questiono no quê realmente devo ter fé e tento me convencer de que as coisas em que acredito são tolas — rapidamente vejo que não há sentido algum nestas construções — afinal, como o homem na cadeira de rodas e como Ivan que se livrou do tumor ao ter levado um tiro no olho, a fé não tem olhos — (enquanto eu ainda não consigo tirar os meus, tento lavá-los; eles permanecem sujos; teimam em estar no mesmo lugar) a fé é um nome para aquilo que me move — sendo um nome, ela é poderosa o suficiente para me mover pois — como um golem — eu não passo de um monte de lama — que, animada pela palavra — preciso dela para tirar a força que não tenho — não importa se nela está um papel em branco ou uma criação de formigas — ambos estão famintos — pois eu sou faminta e carente do meu alimento — roubado — rarefeito — minha alma — camuflada — clama — e eu clamo por conseguir ouvi-la no meio da gritaria das minhas próprias vozes. Assim, a fé não precisa ser em Deus — isto pareceria uma redundância: ela é Deus — ela é o primeiro motor — ela é o movimento — como o de um comboio descarrilhado — e apaixonado — nem meu movimento é movimento — pois ela é o deserto no qual preciso adentrar para procurar água — cada vez como se fosse a primeira — sendo sempre esta vez a derradeira — a água inteira — cujo quebranto me avisa — dela é impossível se apossar — quando vi já dela estou molhada — mesmo que o meu dedo não tenha passado nem sequer da beira — e que — num milagre — esteja insuflada toda de nada!

Tentando entender o que Elifaz diz a Jó — talvez — por estar com o olho no lugar errado — eu chame de castigo algo que seja minha salvação — afinal uma interferência tão violenta da vida num caminho que, ingenuamente, chamo de meu, só pode ser algo divino; este caminho, como disse Jó, é encoberto por Deus — e esta interferência é senão lanterna ardente a abrir meus olhos mancomunados.

Em hebraico, esperança é תִּקְוָה (tiqvah). Um dos seus sentidos originais é o de esticar um cordão ou fio. O livro de Jó, no Antigo Testamento, é onde mais aparece a palavra tiqvah. Sendo a Bíblia um livro essencialmente poético e alegórico, muitos dos versos são repletos de metáforas, e o cordão era uma metáfora muito forte para a esperança. Ou até mesmo o fio no mito de Teseu, que ele deve perseguir a fim de sair do labirinto do minotauro e encontrar Ariadne segurando sua ponta.

Nesta passagem, Jó, desejoso de descer à sepultura, usa a origem da palavra e invoca a figura de tecelão, senhor dos fios dos dias, que, correndo em sua esteira veloz, acabam sem encontrar esperança:

Os meus dias são mais velozes que a lançadeira do tecelão e perecem sem esperança. (7:6)

Mais a frente, diz Jó num diálogo com Deus, falando de sua miséria:

As águas gastam as pedras, as cheias afogam o pó da terra; e tu fazes perecer a esperança do homem. (14:19)

Jó aparenta permanecer, em muitos momentos, desesperançoso. Porém, será que seu discurso revela desesperança ou justamente o fato dele continuar perguntando tais coisas a Deus não revela que ele continua cheio de esperança — caso contrário não estaria obstinadamente tentando conversar com aquele que, além de parecer não lhe ouvir, fá-lo sofrer?

Parece que Jó precisa estar despido de tudo para continuar — como seus perecíveis dias — ou como quando Ivan, no filme, quase morre quando por Adam tenta fazê-lo perder sua fé ao lhe dizer fatos inegáveis que penetravam-no e paralisavam-no, fazendo seus ouvidos sangrarem. Ao tirar tudo de alguém — aparece o que não tem fundamento — e o caminho — o fio — se mostra. Afinal é mais fácil fugir de um fio cortante do que andar sobre ele.

Um fio ou um cordão é também uma extensão extremamente fina de matéria; na matemática, uma reta é a junção de pontos, e estes são, por definição, algo sem dimensão. Portanto, um fio, cujo esqueleto é uma reta, só possui uma dimensão: a do comprimento — sendo, então, infinito. Logo, por ser fino demais, um fio é passível de não ser visto por olhos ansiosos; mudando a percepção — mudando os olhos de lugar — Ivan e o moço do farol não são sem olhos, mas têm mais olhos! — ele é a única coisa a ser vista.

O esqueleto de um fio pode ser uma reta mas ele não é, de forma alguma, rígido; é maleável, e para alguém seguir seu curso, é preciso que haja também maleabilidade nesta jornada — quem se submete a seguir a linha fina e enganosa da esperança não anda em linha reta — mas deve ser permeável para que o caminho se exprima através de quem nele anda — como Teseu ao curvar seus passos — até mesmo julgar-se quase perdido — pelas sinuosidades do labirinto do Minotauro.

Este ponto de inflexão — esta lâmina que é o fio da esperança — enganosa e quase invisível — talvez seja não só do filme Adam’s Apple — mas quiçá da vida na qual tento embarcar a todo custo — aquela num fio paralelo ao meu; talvez seja nesta aproximação que encontrei tanta comoção e tanto sentido.

Esperança ou sonho são também sentidos da palavra quimera. E quimera, na mitologia é também um monstro com um corpo híbrido entre leão, cabra e serpente ou dragão. Como se, ao ser atingido pela lâmina enganosa e invisível da esperança, devo aprender, antes de conversar com Deus a conversar com monstros, fantasmas e demônios. Talvez eles sejam amostras do que seria a fala de Deus.

A quimera era uma das visões que Santo Antão, um santo egípcio do século 3, tinha quando renunciou de todos os seus bens e se isolou no deserto a fim de ter uma vida ascética. Durante anos ele foi atormentado por visões demoníacas e perigosas, metamorfoseadas de serpentes, leões, mulheres sedutoras que vinham atacá-lo para desviá-lo de seus propósitos, mas ele permanecia — não exatamente firme, mas louco — em sua decisão. Em As tentações de Santo Antão, Flaubert descreve sua saída do delírio através de um olhar esperançoso num diálogo entre ele e o Diabo:

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Detalhe de de Hieronymus Bosch, 1500

[…] O diabo estendeu progressivamente suas longas asas, que agora encobrem o espaço

Antão:

já não vê mais nada. Desfalece.

Um frio horrível gela todo o meu ser até o fundo da alma. Isto excede o alcance da dor! É como que uma morte mais profunda do que a morte. Estou rolando na imensidão das trevas. Elas penetram em mim. Minha consciência estoura sob esta dilatação do nada!

Diabo:

Mas as coisas só te chegam por intermédio de teu espírito. Tal como um espelho côncavo, ele te deforma os objetos, e todos os meios te faltam para verificar a exatidão deles. […] Mas tens a certeza de ver? Terás mesmo a certeza de viver? Talvez não haja nada!

O diabo pegou Antão, o segurando com os braços estendidos, olhos fixos e goela aberta, prestes a devorá-lo.

É a mim que deves adorar! E maldizer o fantasma a que chamas Deus!

Antão ergue os olhos num derradeiro movimento de esperança.

O diabo o abandona.

Flaubert, As tentações de Santo Antão, Iluminuras, pág. 147

Tendo pulado uma vez — me lembro como se fosse hoje — porque ainda é hoje — ainda preciso pular mil hojes — para voltar ao início que esqueci — ao início que cresci quando desisti de seguir — quando Rubens me perguntou um dia porque eu estava ali — perto dele — eu respondi, com algo que acho ser uma das coisas mais bonitas já escritas em língua portuguesa — tentando dar ao choro uma voz de canto — tentando dar à música uma voz que não fosse mais minha — mas que me levantasse de minha constante sepultura:

Sim, ME LEVA PARA SEMPRE Beatriz

Me ensina a não andar com os pés no chão

Para sempre é sempre por um triz

Ai, diz quantos desastres tem na minha mão

Por um triz — por um fio — prometo que nada esperarei — talvez eu espere demais — esperar parece vir de esperança mas acho que não é; este esperar vem da lógica — enquanto a esperança é mesmo fora de cogitação — ela vem de fora — do sem fundo — do ainda sem mundo — é estrangeira — e fictícia — sem razão para existir — mas é absurdamente só o que pode existir — e me cobrir à noite do frio que esquenta a arrogância de não querer existir — mas sustenta a força de insistir na formiga; hoje eu não quero seguir o fio da etimologia — mas andar sobre o fio que balança e ameaça a me tirar o equilíbrio — que me convida a me retirar para deixar o mínimo que se esconde no buraco por onde sopra a ventania da corrente marítima da qual fugi ao me ilhar de mim.

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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