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Em 1963, surgia, após a era dos manifestos, um novo manifesto: Para um novo romance, de Allain Robbe-Grillet. A fim de propor uma nova teoria romanesca, Robbe-Grillet expõe uma nova forma de escrever que já não mais se baseia em enredo, personagens, clímax, emoções, entre outros, mas justamente na desintegração de qualquer tentativa de forma narrativa, bem como de personagens. Para ele, o livro que contava uma história, como faziam os mestres Balzac e Dostoievski, não era mais possível (frases, inclusive, ditas literalmente por ele neste manifesto). Um fato curioso é que parece que escritores que realmente pareciam estar próximos dessa desintegração — que não era um projeto literário, mas a síntese de suas vidas — não faziam parte deste “movimento“ (Beckett, Joyce, Artaud, Kafka, Mallarmé..)

É bem plausível que a insuficiência, bem como a desgraça do homem sejam coisas que existam desde sempre. Porém, vejo que em tentativas como a de Robbe-Grillet, mesmo que tenham por alvo a estrutura da narrativa, parecem se concentrar na insuficiência ou desgraça de forma periférica, tratando-a como um assunto, não como uma real condição — é diferente um artista falar sobre a miséria de falar a partir dela. Eu não acredito que a proposta de Adorno sobre o pensamento negativo seja essa que fala sobre — ou mesmo até aquela que nega algo — mas talvez a que, por ter muito falado e negado, já não se interessa mais por isso. Eu não sei definir o que seria esse pensamento — é muito mais complexo do que parece — mas talvez a convivência com Rubens, mesmo que carente e lacunar, me permite cercar algumas coisas que sinto estarem próximas desta noção de negatividade:

Sinto que o desenho de Rubens — não só aquele que ele faz às sextas, mas tendo estes como metáforas de todas as suas ações — parece ser captura de coisas que lhe escapam, o que é um paradoxo; como capturar algo que vai escapar, pois sua natureza é do escape? Nesse caso, o desenho é, a priori, dado pela sua negatividade — tanto pela lacuna de seu lugar inalcançável que se imprime no papel quanto pela sua feitura ser a partir da recusa de tudo que o preencheria; Rubens não o tem em sua mente para depois por no papel; não tem pensamentos que depois escreve, não tem ideias que depois materializa, não tem, inclusive, uma identidade própria para depois afirmar ou negar; o pensamento de Rubens talvez seja realmente esse do negativo de Adorno, pertencente à uma esfera não mais reativa como a qual estamos acostumados, mas numa outra lógica — bem difícil de vislumbrar — sinto profundamente que a fala de Rubens nada quer comunicar — bem como a fala de seus desenhos, a fala de todos os seus dias — se isso parece doloroso para seus ouvintes, imagino como deve ser para ele mesmo — tanger o impossível — sua fala aniquila-se a cada momento que se inicia, pois ela não se cumpre como aquilo que entendemos por fala — nesse sentido, estando em constante processo de troca de pele, Rubens é a própria fala que nada conclui — e talvez seja esse o motivo de que, mesmo que patinamos ao ouvi-lo, não deixamos de tentar — é difícil não concluir nada.

Uma prova de que os textos, aulas, desenhos de Rubens nada revelam ou comunicam é a de que eles são visivelmente infinitos — retroalimentam-se em seu círculo vazado. Se eles tivessem um conteúdo a ser gerado ou apreendido, eles já teriam se dado por acabados — mas é inacreditável como a cada semana tudo realmente se refaz sempre com muito vigor, o que não é por acaso, mas por ser o inacabamento parte da natureza mesmo desse ser em negatividade, aquele que perfaz seu caminho mesmo sem ser preciso — o que corre kilômetros para ter certeza de que o lugar que precisa chegar é o que já estava — o texto de Rubens talvez seja algo negativo por excelência pois ele não nega nada mas precisa que Rubens seja negado ao escrevê-lo — seja aniquilado para que outra vida ali nasça no mesmo momento em que se encerra no derradeiro ponto final — e simultaneamente não encerra-se de modo algum.

Blanchot cita de Bataille uma terrível definição que ele dá a si próprio: ele vivia em estado de negatividade sem emprego — e é a partir desse poder recuante que ele começa a trabalhar. Obviamente eu não entendo o real alcance dessas palavras — como é possível trabalhar a partir de algo que não se pode empregar? -, mas apenas as estou dispondo de forma que possa ser legível — isso, porém, não impede o estado de comoção em que muitas vezes me pego ao ter percepções de coisas tão absurdas como essas — as que eu não percebo como entendidas, mas apenas como absurdas, não sabendo ir além desse ponto. Mesmo triste por não saber explicar, traduzir, escrever, ou até mesmo perguntar sobre este rombo enorme que de repente sou obrigada a ver, eu me sinto muito feliz, mesmo que nada entenda, de ter chances e chances de investigar e presenciar coisas como essas — de poder fazer com que nasça um trabalho justamente a partir desta não compreensão — felicidade esta que não recusa a clichê e literal sensação frustrada de que este relatório sequer encostou na presença anunciadora do vazamento regularmente instaurada através de Rubens.

CCS, 3 de outubro de 2017

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