Quem sabe a morte não cessaria, no seio deste sonho, de ser imanente à vida?

Cioran, Nos cumes do desespero

Como se me encontrasse numa zona de separação da vida, falta-me o ar — o chão — o céu — falta-me tanto a glorificação ou quanto a recusa dela — dizendo-me que não há mais sentido em apenas cantar a vida e suas possíveis conquistas — ou danificar suas pontas com um mísero isqueiro — talvez o único instrumento do qual eu teria posse caso quisesse colocar fim ao fogo encerrado em mim e isso, como não poderia deixar de ser, seria uma piada — pois ele — o fogo — me encurrala diariamente para enfiá-lo num trem desgovernado e alastrá-lo e ateá-lo enfim a qualquer coisa exterior a ele — e ele brilhe feliz inaugurando uma constelação fora de qualquer data comemorativa — e ele corra como um cão vira lata que não tem pressa de ir para casa — pois tem tantas casas — e também não se incomoda ficar fora de todas elas — o som do seu latido não seduz que a porta da casa se abra, mas sim um rio ou pedra — ou mesmo nada; cansado de amarelo, o fogo implora num sonho azul que deixe de ser sua própria matéria prima num único cômodo que já não tem mais paredes além das do meu estômago — e deixe de consumir meus órgãos e aprenda a tocar — música — em outros órgãos — e brilhe e queime e consuma por fim toda a vida ao seu redor e não em seu interior.

Esvaziada de mim, peço ao fogo que também ele, como todo o resto, me deixe! Ou então queime e me eleve de mim — deixe em mim apenas o rastro incolor de minha solidão de modo que nem mesmo eu saiba mais segui-la. E assim ela, sem sistema motor, sem sistema nervoso, possa pensar em mim com toda a precisão de seu corpo e não mais de seu cérebro — agora decapitado — e não mais eu pense nela — e na saudade de ser, eu passe a ser seu pensamento encarnado, e assim possa enfim alcançar o chão e andar pelo caminho de minha vida sem mais trevo de quatro folhas — pois a sorte enfim mudou de ares. Nada mais — ou tudo, enfim — seduziria o sentido desse caminho depois que a paixão de seu pensamento me alcançasse — não seria mais preciso procurar um coração abandonado pois o meu se regozijaria de abandono e dar-lhe-ia infinitas casas pois ele nada mais é que semente frutífera; o cansaço de uma vida que correu em um dia me forçaria a admitir que só assim eu estaria acompanhada da solidão — e não apenas abandonada a ela; ou abandonada de mim, eu poderia ter um corpo que pudesse andar neste trilho sem luz — e que eu não procuraria mais uma música para cantar mas nasceria sempre uma deste encontro apaixonado; que não estaria nunca mais tão tarde para chegar em casa.

CCS, 11 de fevereiro de 2019

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