Na mitologia grega, há um personagem importante: Tirésias, um profeta cego que passou pela incomparável experiência de ter sido homem e mulher de sete em sete anos. Após ter tido sua visão subtraída por Hera, no lugar do órgão roubado, como era condição entre os profetas, é lhe concedido por Zeus um outro tipo de visão — o dom da profecia (manteia). Para os gregos, a fala dos profetas é uma fala que não se resume a se estender sobre o futuro — ela sequer fala — mas altera as relações com o tempo — ela não fala sobre apenas as possibilidades do futuro mas sobre um tempo impossível. Quando a fala é profética, não é o futuro que é dado, é o presente que é retirado, e toda possibilidade de uma presença firme, estável e durável. É novamente como um deserto, e a fala também é desértica, é a voz que precisa do deserto para gritar e que desperta sempre em nós o medo, a compreensão e a lembrança do deserto.

Eu, Tirésias, ainda que cego, pressinto entre duas instâncias […]

Eu, Tirésias, já quase encarquilhado

pressinto a cena e prenuncio o resto […]

Eu, Tirésias, que já passei por tudo

impotente aqui também estou

Tradução de Rubens Espírito Santo de O Sermão do Fogo, parte III de Terra Desolada de T. S. Eliot, 2013

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Não é à toa que Tirésias deve emergir — erguer-se — ou melhor, ser erguido, pois talvez depois de sete gerações, por mais que ele ainda sobreviva, precisa de alguém para fazê-lo andar — do méthodo, já que ele é a personificação da capacidade de ver onde não há luz — e quando a luz reflete numa pele úmida e imóvel, chocam-se as realidades, estilhaçando sua frágil superfície:

A isto, contra isto, proponho o método, o sol, o meio dia. O método queima a pele viva, incide o sol, deriva menos um, solapa, invade, atravessa, rompe.

Caralhada de nada, escrever, escrever, ver, escrutínio, escrever, rever, incidir, resistir, infiltrar, escrefuçar a escrita até algo aparecer ser o método, fazer o método ser aqui, desembuchar o méthodo dele mesmo, escrever erguer esgueirar Tiresias […]

Rubens Espírito Santo, Mais uma tentativa de expor meu méthodo de ensino de arte, 2 de junho de 2018

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Como Tirésias, a letra — completamente destituída do papel que lhe fora atribuído — cede — vacila — fracassa — é mudada tantas vezes a ponto de ter seu próprio sexo — sua suposta definição — transformado:

[…] destituída a letra se submeteu a uma cirurgia de troca de sexo […]

Tendo tido seu sexo mudado, a palavra — agora neutra — estranha a ela — quebra todo vínculo com aquilo que poderia chamar de eu — semelhante a uma certa neutralidade de Tirésias com relação às polaridades sexuais — Tirésias vem de téras (monstro ou neutro).

E o desvio — assim como oo cansaço de Tirésias — da letra, átomo da palavra, torna-se átomo da profecia — que já não carrega em si peso algum que não o de seu próprio corpo — livre, pode comunicar algo — e então, torna-se, também, profecia:

[…] submersa a palavra irá comunicar sobre o método, trago a mensagem, endereço de um fim […]

e esta palavra sem repouso — jogada em pedaços — vista apenas por alguém cego demais para ver qualquer coisa que não ela — atravessa seu som e estabelece em seu entorno silêncio dele vindouro:

[…] o mundo novo ainda sussurra suas palavras inaudíveis […]

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Cila era uma ninfa que foi transformada em monstro aquático e depois em rochedo. Cila devorou seis companheiros de Ulisses. Em sua fronte, no mar, localizava-se Caríbdis, um redemoinho que tudo devorava. O caminho que ficava entre as duas era extremamente perigoso; Ulisses só consegue retornar a Ítaca depois de passar por entre elas. Em algum momento — quando se chega no caminho que fala a fala que não se fala — está-se entre Cila e Caríbdis — sendo uma a língua e a outra, o abismo engolidor de si:

Eu aqui preso sem liberdade alguma entre uma parede de concreto da língua e outra parede líquida do que não sei, cercado e oprimido pela própria força de ser incompleto e insuficiente

Antes de Cila ter sido transformada em monstro, ela era uma ninfa, pela qual Glauco, uma criatura marinha, havia se apaixonado. Ela fugia dele pelas águas, rochas e cavernas submarinas, escondendo-se em lugares inacessíveis para que Glauco nunca a encontrasse. Glauco reconhece sua derrota e providencia uma maldição que a transforme em monstro.

A luta com o monstro aqui, porém, não é uma luta que simboliza algoç — mas devora algo — esse algo são os olhos — que necessitam ser devorados — para que se veja — o impossível:

invadido o monstro marítimo desliza pela areia do fundo de meus olhos.

Construir a possibilidade de pertencer-se ao mundo, enquanto que, a si, só lhe pertence o fio cortante da possibilidade de ser — e que traz consigo inequívocos amontoados de pó — de história — da solidão de um cadeado cuja chave foi moldada com a forma de nossa digital:

o méthodo é isto: um jeito de voltar de uma viagem sem fim, que acabaria mal, um fio de Ariadne do nosso tempo ao lugar inacessível de nós mesmos.

CCS, 3 de junho de 2018

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