Enfim uma viagem de ônibus fictícia e honesta

“Estou mal”, “estou com dor de cabeça”, “estou sem dinheiro” – todas essas e mais uma infinidade de afirmações como essas são uma verdade inegável para a grande maioria de pessoas o tempo todo. Na primeira oportunidade, elas te diriam o quanto estão feridas.

Então, qual é a graça de repeti-las, sabendo que são verdade e dizê-las não irá mudar nada? Ao se repetir estas frases, não só se repete-as verbalmente, mas, pior, repete-se a postura e a ferocidade de sua destruição, não se engendrando absolutamente nada: não há vida alguma sendo criada. O próprio Satanás de Milton, quando consegue enfim chegar ao paraíso, diz que não sente em seu corpo tanta diferença, pois ele levava em si o inferno; ele era seu próprio inferno.

O que estou querendo dizer com tudo isto? Aparentemente só há coisa ruim nisto, mas não!!! Isto tudo me aponta para o fato de que a criação de algo não está mesmo em um objeto, mas no envolvimento com ele, seja qual este for – este envolvimento não está impregnado desta “verdade”, que é só um vício, o oposto de algo que se cria; apenas este envolvimento será um movimento contrário a todas aquelas afirmações paralisantes que disse no começo – e que repito, todos têm a dizer e, por isso mesmo, ninguém quer ouvir. Sendo assim, estando a arte não no que se faz mas no modo como se faz, podemos vislumbrar luz num caminho tão obscurecido por nós mesmos: frente a tanta tecnologia criada pelo homem, ser capaz de descobrir que a maior tecnologia está em nós mesmos é quase criminoso! Parece que olhar para o futuro e também olhar para o passado: talvez o homem que não tinha acesso a nada exceto ele também conseguirá inventar a roda no futuro – a roda que o fará recuar e parar e olhar à sua volta, a ele mesmo! Acessar algo divino que está dentro de nós – algo mentiroso, algo que ninguém nos conta sobre nós – parece ser algo a ferir nossas leis mais íntimas – parece como o olhar do Deus Pã, que enlouquece o primeiro que o avista! Fico pensando que talvez essas contradições pertencentes ao paganismo seja um dos fatores que o afastou de nós – para nós, hoje talvez só saibamos existir religiões relacionadas ao céu ou ao inferno – porque rapidamente conseguimos fechar estes conceitos em bons ou maus, em verdadeiros ou mentirosos, desligando todo sua mágica. Isso também deve fazer o livro de Milton parecer distante de nós, ele é muito mais desconhecido do que Shakespeare por exemplo, que é quase da sua época – Milton é erótico, ele não fecha Satanás num vilão ruim e nem Deus num cara bom. É contraditório, como RES, que nos mostra como a verdade pode ser a maior mentira de todos ao fazer algo que nos disseram a vida toda sermos incapazes – ao quase conseguirmos acreditar naquilo que não acreditamos. Em vez disso, nós teimamos ao querermos fechar a visão na frente de um colorido do arco íris pós chuva.

Sentir tudo isto é fantástico, fico imaginando como seria transformar este sentimento como algo visível para todos – este grunhido em fala. Não me sinto triste por ter tantos impedimentos mas me sinto feliz por saber que posso enxergar pela fresta entre eles! E me sinto feliz se tiver fôlego em continuar perguntando por que é tão difícil acessar o maravilhoso – mesmo sem achar resposta, a pergunta é um ato de coragem e de invenção!

CCS, 7 de fevereiro de 2020

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