Sobre a segunda parte de um poema marítimo de Res

Uma pequena estante logo embaixo da janela feita de latas grandes de óleo. Na estante tinha mapas, cartas náuticas, diários, canivetes, bússolas. O chão de madeira de tábuas não aparelhadas, 16 metros quadrados de área era tudo, uma pequena cama, alguns copos, cinzeiros, garrafas, uma carabina pendurada, munição, tambores médios de combustível, um saco de roupa no canto, uma minúscula janela improvisada na parede de restos de pranchas marítimas, uma escada de uns cinco metros até o chão, Marco Aurélio vivia ali, tinha sempre por perto um pequeno vira-lata que atendia por Orfeu. Tinha também sobre uma mesinha quase menor que a janela uma boca de fogo em lata de querosene, o lugar era bem inflamável. Servia para aquecer água e restos de comida que trazia às vezes do refeitório de um navio onde ia fazer reparos, sim, Marco Aurélio reparava navios, pequenos consertos, limpeza, troca de peças sem importância, trazia mensagens, em algumas situações extremas transportava opiáceos.

Res, A descrição do quarto da estalagem no Porto de Santos, definindo o nome do personagem do poema anterior: Marco Aurélio, 2 parte de um poema marítimo, 13 de fevereiro de 2018

Em um cômodo do tamanho de algumas celas de prisão, com objetos tanto que podem prometer expandir materialmente sua vida — mapas, cartas náuticas, bússola, canivetes -, sua vida emocional — diários, um vira-lata, opiáceos — quanto objetos que podem aniquilá-la — uma boca de fogo em lata de querosene, carabina, munição, combustível -, vive Marco Aurélio.

Bataille define comunicação fraca como aquela em que se baseia a sociedade profana e ativa (no sentido de produtiva) e comunicação forte como aquela que abandona a consciência ao seu lado impenetrável, o que costuma fundar as emoções da sensualidade e das festas, pelo drama, pelo amor, pela separação e pela morte.

A comunicação forte, para Bataille, é a essência daquilo que ele chama de soberania, algo que só acontece depois de uma infração de interdito:

Essa soberania de que goza não poderia ser busca (não pode resultar do esforço), ela é, como a graça, revelada. […] A beleza que suscita um canto é a infração à lei, a infração ao interdito, que é também a essência da soberania. A soberania é o poder de se elevar, na indiferença à morte, acima das leis que garantem a manutenção da vida.

Bataille, A literatura e o mal, pág. 176

Seriam, então, os objetos de Marco Aurélio, meros objetos? Não seriam eles a representação de sua infração à lei — ou seja, a representação de sua vontade de se elevar acima daquilo que apenas mantém sua vida — para que ela não se resuma a uma mecanicidade de atividades constituintes a qualquer ser humano num cubículo que é, inclusive, bem inflamável? Marco Aurélio parece recorrer, indiferente à morte, a tais suprimentos — mortais — para assegurar-lhe não ela seja definida como algo tão pequeno que cabe num cômodo de dezesseis metros quadrados — mas, para superá-los, ele precisa estar e viver nos malditos dezesseis metros quadrados.

Caso estes dezesseis metros quadrados se transformassem subitamente em dezesseis mil, Marco Aurélio, ainda assim teria de lidar com sua inflamabilidade e com suas janelas improvisadas; as duas prisões, pequenas ou grandes, estariam fundadas nas mesmas bases e igualmente envoltas pela gravidade de um mesmo véu.

O vira lata Orfeu não está lá por acaso; está sempre perto de Marco Aurélio para lembrá-lo que ele não precisa mais descer aos infernos pois já está nele; que ele não precisa olhar para lugar nenhum além do lugar que está para buscar o que quer que seja; bem como não há Eurídice que ele deva buscar — o amor — ou qualquer outro tipo de resposta supostamente satisfatória a qualquer ser humano solitário — não está na última morada, mas ambos — amor e inferno — residem em sua única e atual morada: aquela inflamável e de dezesseis metros quadrados.

CCS, 22 de fevereiro de 2018

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