permanente de infecção

Sobre Emily Brontë e Abigail e a cidade proibida

Aqui é o chefe do Departamento de segurança falando. Para mantermos os cidadãos a salvo de uma terrível doença, as fronteiras da cidade foram fechadas.

Abigail e a cidade proibida

Carecer de infinito limita e comprime desesperadamente.

Kierkegaard, O desespero humano

E eu, aprisionada a este sortilégio,

[…] a vontade se acha extinta,

Não posso mais partir

Emily Brontë, A noite se torna mais escura

Há dias que são extremamente cinzas; porém não são cinzas pela ausência de algum acontecimento relevante — tudo de relevante acontece em todos os momentos — eu é que não os percebo sempre por não aguentar sua força dizível reverberar em mim. Mas porque talvez, nesses dias, o imperativo é a lista de tarefas — esta frase também está errada, pois não há nada de errado com a lista de tarefas — mas talvez em meu modo de não ver as entrelinhas numa lista — de não ver o branco do papel sendo desenhado pelas formas das linhas. Com esta visão turva, vejo a vida se esvaindo pelo ralo do cotidiano — e penso que poderia não mais ver sob este filtro — mas sim sob o filtro da força potente que há na lente formada pela ânsia de ver de outro modo — na tamanha força que há para impedir a reverberação deste grito impedido pelo que chamei de dia cinza.

Este parece ser um dilema que não é só meu — e nem concernente apenas a meu tempo — reaparece hoje sob formas diferentes das que já apareceu, ocultando uma dificuldade em elevar-se acima do ordinário e do racional. A tentativa de superar esta dualidade foi o que marcou a época do Romantismo, época imediatamente posterior ao cartesianismo, ao iluminismo, ao racionalismo — repare, por exemplo, na diferença entre A flauta mágica de Mozart e Ode à alegria de Beethoven — a ordem de um e a embriaguez da outra — ou no florescimento de alguns escritores na época do Romantismo: o excesso de fantasia, a despertar de histórias xamânicas e de seitas secretas, o olhar voltado às gárgulas e à espiritualidade da Idade Média, o misticismo do primeiro Hegel, os sonhos de Novalis, pesadelos de Hoffman, a loucura de Hölderlin — e na Inglaterra, o terror e amor vacilantes nO Morro dos ventos uivantes de Emily Brontë — que, dois anos após ter concluído seu único romance, morreu aos trinta anos — como se, em vez de ter desejado sair de sua vida, tentasse unir-se violentamente a ela através da invenção de personagens Catherine Earnshaw e Heathcliff — ou seriam eles dispositivos para tocar aquilo que sua realidade moral e racional (racional aqui não como algo pensante, mas como tudo que exclui o proibido) recusava? — e que podemos ver pela fala do fantasma errante de Catherine “deixe-me entrar!” — quando esta tenta, após a morte, entrar novamente na charneca Morro dos ventos uivantes.

Há algumas semanas, assisti o filme Abigail e a cidade proibida a convite de Res — um convite em que teoricamente não determinava especificamente este filme nem tinha a presença de Res. Escolhi enfim este filme steampunk de fantasia que conta a história de uma cidade cujos habitantes sofriam ameaça de uma epidemia. Nesta cidade, havia os inspetores, trabalhadores do governo que examinavam as pessoas para averiguar os infectados. Quem estivesse infectado iria ser exilado para fora da fronteira delimitada da cidade para que a epidemia não se espalhasse.

Inspetores mascarados do filme Abigail e a cidade proibida

Numa parte periférica da cidade, moravam aqueles que supostamente tinham a infecção, porém que não haviam sido pegos pelos inspetores porque fugiam dele. O lugar em que moravam era tão estranho que os inspetores não ousavam entrar ali. Abigail, uma jovem que nutria uma revolta contra os inspetores pelo fato de seu pai ter sido levado por um deles, descobriu estes habitantes periféricos. Descobriu também que, na verdade, a infecção que eles tinham lhes confiava poderes mágicos que, fora dali, não podiam ser usados. Estes habitantes construíam objetos que os permitiam acionar os próprios poderes mágicos.

Uma fala de seu pai através do sonho — ou da viagem através do tempo — de Abigail era:

Epidemia não existe. Epidemia não passa de um subterfúgio para perder qualquer pessoa que tem um dom. Esse dom é muito perigoso e as autoridades não gostam disso.

Penso que esses dias cinzas que mencionei não são dias em que estou doente ou limitada por algum motivo — mas são dias em que não permito estar doente; dias em que o imperativo na verdade é uma saúde imposta por qualquer coisa que não diz respeito ao meu próprio corpo — mas muitas vezes ouvida por ele automática e sistematicamente numa relação orientada a fugir de si próprio. Catherine Earnshaw morreu justamente por estar longe deste lugar maldito — e inclusive mortal — e que foi vivenciado por ela em sua infância com Heathcliff — deste lugar inabitável do qual, porém, não podia mais se distanciar — distanciar-se lhe custou a vida.

De qualquer modo, ouvindo ou não seu chamado, a doença é irremediável. Tendo em vista a experiência radical que foi O morro dos ventos uivantes para Emily Brontë e esta fala sobre epidemia do filme Abigail, talvez arte — e a convivência a trancos e barrancos com a ninfa — bem como a religião em seu sentido radical e não vulgar — seja um artifício extremamente poderoso — e simultaneamente impedido de estar no poder, proibido em todas instâncias — ainda assim urgente para a manutenção dos dois estados: estar são mesmo estando doente; estar na vida e romper com ela; atravessar a fronteira e permanecer nela.

Objeto usado para uso dos poderes mágicos no filme Abigail
Tatuagem de Emily Bronte desenhada por RES e tatuada por Gabi Navarro

INSERIR FOTO DESENHO DE RES DA EMILY BRONTE

Bibliografia

Emily Bronte, O morro dos ventos uivantes, Editora Zahar, 2016

Emily Brontë, O vento da noite, Editora Civilização Brasileira, 2016

Rudiger Safranski, Romantismo: uma questão alemã, Estação Liberdade, 2010

Bataille, A literatura e o mal, Autêntica, 2015

Abigail e a cidade proibida, 2019

CCS, 6 de outubro de 2019

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