Abelardo,

[…] o que tem a elasticidade da eternidade conserva-a através de todos os tempos sempre inalterada.

Kierkegaard, As obras do amor, pg. 43

No começo da noite, depois de uma conversa de mais de uma hora que parece desafiar não só o tempo mas o nosso fracasso em nos abandonarmos, permaneço numa hesitação entre começar a escrever e deixar de escrever para sempre — entre querer abrir a porta dos leões e lutar com eles e vê-los dançar ou a ligar a televisão e esquecer que um dia já existi. Não sei o que é esse estado febril que começa e toma conta do corpo mas que logo atravessa a rua sem se despedir. Eu sei que você o entende e é tão mágico e misterioso poder comunicar essa coisa nebulosa e molhada para você, sem você me julgar ou decidir que eu não tenho os botões no lugar certo — ou melhor, sem que isso faça diferença para você.

Nunca entendi como era possível ter tantos horizontes abertos a cada xícara de café que tomávamos, a cada copo de cerveja que brindávamos. Sempre que eu ia embora de você, era um misto de felicidade e tristeza que embaçavam minha visão, aquela sensação que eu sempre tentava evitar, um vazio a me preencher que eu não suportava — ele me obrigaria a realmente me esvaziar e esquecer quaisquer sonhos de papel construídos e tão cuidadosamente recortados com uma tesoura sem ponta, para serem colados no diário. A cada encontro, algo me derrubava, e hoje vejo que a incapacidade de termos nos elevado até o brilho das estrelas era algo soberanamente amedrontador. Pois, quando pulávamos de cafeteria em cafeteria, alcançar as estrelas era a única possibilidade que eu enxergava para o fim da noite. Porém, em vez de enxergar o brilho tão evidente daquele de quando você chegou, sentia o peso dessas estrelas me atingindo, e eu respondia a isso criando alguma desavença, fazendo-o ter raiva de mim: até mesmo pelo fato de você não ter visto o estrago que a queda da estrela causou em mim, deixando-me em estado de abandono sem ainda ter ido embora. Contrariada e entristecida, eu chutava para baixo da mesa do bar o estardalhaço do meu coração quebrado pela ponta aguda da estrela cadente e, com o olhar perdido por não ter conseguido agarrar seu brilho, e com a voz pesada pelo que chamava de tédio devastador, dizia que queria ir embora. Mas essa vontade de ir embora era senão uma vontade de voltar ao começo, de unir instantes díspares num segundo eterno — ter um novo começo de dia, reprojetar o momento do fim, comparecer à hora que o sol, sem escrúpulos, estala e mostra a cena do crime, à hora em que somos jovens e quando tudo é possível; à hora em que conseguimos conjugar o verbo amar sem precisar colocar depois dele um objeto; à hora escura de não temos mais medo, mas sim temor; à hora em que abraçamos um acorde e embarcamos sem malas num trem que nunca saiu do lugar.

Você me mostra uma delicadeza que sou incapaz de ter, mas que luto para conquistar, como suas inúmeras fitas de cetim para marcar páginas, sua letra de criança, sua voz que consegue desenhar o contorno dos objetos no ar, seu mini altar portátil contendo tesouros particulares, seu dicionário com tantas palavras grifadas que cabe no bolso do casaco, sua pele imaculada, seus dedos de alfinetes que despertam lugares tão ocultos sem desviá-los de seu paradeiro móvel de sonho.

Não gostaria que esta carta tivesse um tom tão melancólico, mas talvez seja esse o tom certo que meus olhos defeituosos consigam enxergar um pouco mais longe do que um palmo de distância, ou que consigam enxergar além das projeções que tenho de você — projeções essas que, por portarem tanta admiração e magia, talvez sejam as responsáveis por me conduzirem a caminhos que sozinha, não poderia nem pensar em ir. Sua companhia é tão querida e tão repelida porque é absolutamente contraditória: ela segura minha mão para me levar ao trampolim em que só cabe uma pessoa, ela me inaugura a mais completa solitude, me empurra à mais dura solidão de saber que amar a mim mesmo é um dever e nunca foi apenas uma opção.

CCS

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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