CCS, 6 de janeiro de 2019

Introdução

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Cientistas acreditam ter encontrado estruturas de Atlântida no meio do deserto do Saara; detalhes batem com história de Platão

Atlântida (ou Atlantis) foi um grande continente lendário situado no meio do Oceano Atlântico. Neste continente, há um paraíso, onde tudo é extremamente fértil e onde há harmonia entre os povos. Atlântida foi pela primeira vez citada por Platão [1], através de uma narrativa que, segundo ele, é histórica e não mitológica. Segundo Platão, Poseidon dividiu a ilha de Atlântida em dez partes, cada uma com um governante [2]. Ao mais velho, o rei, atribuiu toda a ilha e também o mar. O primeiro que reinou foi Atlas, a figura mitológica que instala o equilíbrio entre céu e terra.

A civilização atlante é extremamente avançada, e por isso era muito cobiçada, o que fez com que os atlantes desenvolvessem exércitos armados não só para se defenderem, mas também para aumentarem seu território. Grandes conquistas bélicas foram endurecendo os corações puros dos atlantes, fazendo com que entrassem em decadência. Esta queda da civilização Atlante mostra o processo a queda do elemento divino [3] e, sobre ele, o elemento mortal começar a prevalecer: a condição humana degenerava a condição divina, e isto era mostrado através daqueles que, apesar de parecerem extremamente belos e felizes, estavam inebriados por poder e arrogância. Para deter isso, Zeus, o deus dos deuses que reinava Atlântida através das leis, puniu os atlantes para que eles voltassem a ser moderados. A narrativa de Platão está incompleta e não nos conta qual é esta punição.

Aquaman

Arthur Curry (o nome mundano de Aquaman) é filho de dois mundos: sua mãe é Atlanna, rainha de Atlantis, e seu pai, Tom Curry, um humano mortal da superfície. Aparentemente, sua origem será aquilo que o impedirá de seguir seu destino de ser rei e deixar o trono para seu irmão, filho de dois atlantes.

Contrário à sua vontade de dizer não ao seu destino, Arthur se prepara para assumir seu posto no trono. Para isso, ele precisa pegar o Tridente do Rei, que só pode ser pego pelo único e verdadeiro rei. O tridente é protegido de falsos deuses pelo monstro Karethen, e precisa ser enfrentado por Aquaman. Ao chegar à área do tridente, Aquaman ouve as seguintes as palavras vindas do monstro:

– Você não pertence a este lugar. Protejo o Tridente contra os falsos deuses desde o princípio há mil anos. Já vi os maiores campeões tentarem e falharem. Mas nunca senti alguém tão indigno como você. Como se atreve a vir aqui com o teu sangue impuro mestiço reclamar o maior tesouro da Atlântida? Que assim seja. Mestiço. Você se considera digno, se considera um Rei? Você desonra este lugar com a tua presença.

Aquaman aqui faz uma manobra: ele ouve de outro ser o discurso que ele mesmo se pronuncia há muito tempo. Ele sempre negou de qualquer modo que seria rei, justamente por não se achar digno, por ser um ser cindido, proveniente de mundos diferentes e não ter pureza alguma em seu sangue. De algum modo, Aquaman conseguiu ouvir algo além da sua fala recorrente, aqui repetida por Karethen para provocá-lo; consegue ser uma terceira pessoa entre ele e Karathen. Se Aquaman estivesse permanecido como primeira pessoa, teria confirmado suas próprias teorias de fracasso com o discurso do monstro e desistido do trono. Ele então tira forças não mais de suas ideias, mas da profundidade do mar, aquilo que ele nega profundamente — mas que também ama profundamente — e deixa de se seduzr pela falsa questão de ser ou não digno, — de ser ou não alguém, enfim — mas vai em direção àquilo que precisa fazer — e rapidamente age de forma a impedir o próprio impedimento:

– Para! Tem razão. Sou um impuro de sangue mestiço. Mas não vim aqui porque acho que mereço, pois sei que não mereço. Me entenda.

– Entendo. Nenhum mortal fala comigo desde o Rei Atlan. Quem é você?

Karethen se impressiona com a audição de Aquaman — são raras as pessoas que o ouvem. Isto prova que Aquaman estava realmente ouvindo o mundo oculto — a voz invisível de uma autorização que ele não conhece — e, a esta hora, já não precisa, pois sua audição fora ativada; seus sentidos, dilatados — para ele ser o que é.

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O monstro Karethen

– Não sou ninguém. Vim porque não tenho escolha. Vim para salvar o meu lar e as pessoas que eu amo. Vim porque o Tridente é a nossa única esperança.

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O tridente do Rei capturado por Aquaman

Zaratustra dizia que o homem é, antes de mais nada, um rio turvo [4], e é preciso ser um mar para receber este rio sem que suas águas se tornem imundas. Um rio turvo é um rio que perdeu a transparência e a limpidez, é um rio sujo; é exatamente como Arthur se sente por ter sido resultado de uma união híbrida entre deus e mortal. Para se tornar definitivamente o rei, o Aquaman — ou Super-Homem como quis Nietzsche — deve abraçar esta impureza pois até o mais sábio entre vós é um ser indeciso e híbrido entre planta e fantasma [5]. Aquaman, aqui, supera o que o homem Arthur Curry pensou a vida inteira sobre si, como quis Nietzsche: o homem é algo que deve ser superado [6]. Neste momento, ele prova que a parte divina dele não é menor que sua parte humana: talvez o ato de superar a parte humana em nós — a parte pobre, mesquinha e miserável — seja algo que a palavra divino possa nos ensinar, e não ter conseguido chegar a esta superação foi o que levou Atlântida à extinção — e é o que nos leva hoje ao pior de nós.

Num diálogo entre Mera e Aquaman, num momento anterior ao dele tornar-se rei, Aquaman confessa sobre sua identidade, tentando fazê-la desistir da ideia dele ser tornar rei:

– Não sou um líder. Não sou um Rei. Não trabalho, nem me dou bem com ninguém. E não vou deixar-te morrer a tentares transformar-me em algo que não sou.

Ela responde:

– Você acha que não é digno de liderar porque você é de dois mundos diferentes. Mas é exatamente por isso que é digno. Você é a ponte entre a terra e o mar. Consigo ver isso agora. A única pergunta é, você consegue?

Ou seja, a parte divina de Aquaman é exatamente sua parte humana, sua parte pobre, que não tem comida — e por isto é faminta de sair desta condição — sua parte que é justamente a ponte entre sua miserabilidade e a capacidade de superar esta condição:

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Além-Homem: uma corda sobre um abismo. […] A grandeza do homem consiste em ser uma ponte e não uma meta; o que se pode amar no homem, é ser ele uma ascensão e um declínio.

Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Prólogo, pág. 16

Para mostrar essa união de mundos a seu irmão Orm, Atlanna, a mãe de Aquaman fala a seu irmão:

[…] Você foi mal orientado. Seu pai te ensinou que havia dois mundos, mas ele estava enganado. A terra e o mar são uma coisa só.

Esta fala me faz ver a possibilidade de ser não mais limitada por áreas contrárias de terra e de mar — de não mais tentar impedir — e fracassar –, com uma muralha de areia, o movimento marítimo em mim — mas ser um grão que nele se dissolve: algo minúsculo a ser levado pelas águas que correm dentro de mim — que ora se pendura nas franjas das ondas que explodem — ora se aventura numa gota de chuva que cai nesse mar — duas instâncias vindas uma de cima, outra de baixo — mas ambas feitas da mesma matéria: água corrente a se encontrar num limite do ar: o brilho de seu corpo transparente de nuvem me anuncia que o divino não está longe — mas sim dentro — a me quebrar — como onda — e a me elevar aos céus — como água em ebulição — o tempo todo.

[1]Timeu ou da natureza e Crítias ou da Atlântida

[2] Tal como foi dito anteriormente acerca da partilha que ocorreu entre os deuses, eles dividiram toda a terra aqui em porções maiores e acolá em mais pequenas, onde estabeleceram templos e sacrifícios em seu próprio benefício. Deste modo, Posídon, quando lhe coube em sorte a Ilha da Atlântida, estabeleceu aí os filhos que gerou de uma mulher mortal num certo local da ilha. Crítias, 113C

[3] Mas quando a parte divina neles se começou a extinguir, em virtude de ter sido excessivamente misturada com o elemento mortal, passando o carácter humano a dominar, então, incapazes de suportar a sua condição, caíram em desgraça e, aos olhos de quem tem discernimento pareciam desavergonhados, pois haviam destruído os bens mais nobres que advêm da honra. Crítias, 121B

[4] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Vozes de bolso, Prólogo, pág. 15

[5] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Vozes de bolso, Prólogo, pág. 14

[6] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Vozes de bolso, pág. 42

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