Análise do poema ”Dez variações sobre Tauromaquia” de Rubens Espírito Santo

Dez variações sobre Tauromaquia é um poema recente do Rubens que, mais uma vez me tocou bastante; eu não sabia dizer nem de leve qual era o aroma que eles me traziam.

Parando um pouco para pensar — inclusive de pensar tanta loucura — cheguei a alguns lugares que se mostram como miragens solidificadas — quanto mais tento me aproximar mais elas se definem como eternas miragens. São, assim como tudo tem mais ou menos estado ultimamente, caóticas, mas vou tentar concatená-las.

Anáfora: Figura de linguagem em que há repetição de palavra ou conjunto de palavras no início de frases ou versos. É a junção do prefixo grego ana e do verbo pheró:

Ana: Repetição;

Pheró: Transportar, suportar, manter.

Rubens aplica esta figura de linguagem no poema e isto chama muito a atenção, além dos versos que seguem estes versos Um homem / Um touro repetidos dez vezes ao longo do poema. Ela traz à tona uma espécie de lupa numa cena supostamente acontecendo no poema; um zoom que, por sua vez, não ajuda a ver melhor para poder solucioná-lo, mas expõe melhor suas partes intrincadas umas nas outras que não se via antes — suas partes insólitas, talvez. Essa é a manobra que vejo muitas vezes Rubens fazendo e também os discípulos, sobretudo aqueles mais próximos dele — isso está em sua insistência em nos dizer diga isso ou aquilo com extrema precisão. É esse ato de fazer um zoom esquizofrênico na mais minúscula partícula de coisa — aquela que não deixaria rastro nenhum para que houvesse pergunta, pois está aparentemente resolvida e sem margens — e é nessa superfície sem rugosidades, nunca dantes pisada, sempre evitada, essa na qual nunca houvera estudioso a se debruçar que Rubens deposita suas ferramentas de trabalho.

Um homem

Um touro

Nenhum ruído ou atrito

É-se homem tanto quanto se é touro; saber dessa informação nenhum efeito causa, pois, como não sei defender não aquilo o que sou, parece não haver conflitos entre Carol, homem ou touro; além disso, como, num primeiro momento, não se sabe distinguir o homem do touro e da Carol, não há ruído ou atrito entre eles. Pacificamente — ilusoriamente — , nenhum ainda se olhou nos olhos — vivem — convivem — sobrevivem — todos no mês corpo.

Um homem

Um touro

Dona Inocência se levanta

Num segundo momento, há — ainda — o ato de se levantar — mesmo que talvez apenas para assistir o homem e o touro — há várias inocências levantando — ou tentando — a tentativa — tudo que dá para fazer — é só o que se pode fazer. Quem pode se levantar no meio do alvoroço é mesmo a parte neutra de mim, a parte desconhecida, a parte idiota, imaculada pela loucura habitual, a que não sabe ser, tampouco sabe não ser nada além dela mesma. A parte que pouco dá as caras — quem sabe seja ela o possível ser ressuscitado por Rubens em mim.

Um homem

Um touro

A arena perdida

Logo Inocência se fez em pé na arena — local onde há touradas — e ela já se dá por perdida; não dá pra ganhar a realidade com apenas ela; o recurso falta, a falta do instrumento denuncia toda e qualquer alienação, pondo tudo água abaixo.

Um homem

Um touro

Jardim de areia

Um homem

Um touro

Açambarcamento

Derrubado pela realidade — a areia que constituía a arena — o chão que se pisa — a verdade que se sabe — sobre a qual se ilude saber — só tendo esse chão derrubado para poder entrar numa esfera outra — numa esfera pública — na realidade enfim.

[…]

Um homem

Um touro

Entre o vestiário e o picadeiro a fúria de deus

A fúria está antes de ter sido açambarcado, de ter tido areia jogada nos olhos, de ter sido coberto por ela e derrotado pelo touro; a fúria está no pequeno caminho, no vão que há entre os dois lugares, entre o minúsculo espaço de tempo no qual não se vê possibilidade de haver qualquer coisa; a fúria está no começo, está quando na primeira estrofe, quando não há nenhum ruído ou atrito, está antes do espetáculo, antes do que se espera ser um fim trágico, o trágico já foi encomendado no começo do qualquer poema — de qualquer homem e de qualquer touro — que se repetem em qualquer terra que não precisamente cultive eventos de tauromaquia.

Acredito fortemente que estamos aprendendo, com sofreguidão, a ver esse início caótico, essa luta que existe antes daquilo que se pode chamar de ir para a luta — talvez seja bom que existam nomes, pois, apesar de não haver dois momentos distintos, podemos sempre achar que existem para poder buscar uma inocência que pode se levantar — está-se sempre em luta, está-se sempre se preparando para a solidão usando as palavras do Felipe. Acredito que a aula de hoje tentou rodear isso, esse território translúcido difícil de demarcar, pois sua existência não se difere das muitas outras; ela está sempre começando e nunca se dá por terminada — não é como uma lista cujos itens acabam — ou um remédio cujo frasco se tornou inútil pois não há mais líquido dentro — é interminável, é mesmo um pedaço daquilo com o que escolhemos lidar, nossa própria matéria — nossa vida que não começa em nós.

As falas que cada pessoa teve sobre a atual ausência de RES me lembram isso, a dificuldade e insistência em sofrer uma terrível sina que nos cega o olho com areia — aquela de, além de sermos nós mesmos, estarmos também vestidos desses nós.

A insistência que praticamos está longe ainda da insistência — da anáfora — que RES pratica — e, consequentemente, por ser anáfora, suporta; a repetição de saber-se encharcado de areia, de saber-se em estado de luta, em estado de não saber, e mesmo sabendo que esse estado não será findo, não será açambarcado — como ele — ele suporta fazer sempre a construção de um território para uma pergunta não respondida — tampouco bem perguntada — por isso necessita ser sempre refeita.

CCS, 3 de agosto de 2017

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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