Análise de um trecho de uma carta de Rubens Espírito Santo

Não posso falar mais nada do que pensei após a absurdidade da carta que Rubens enviou ontem após mais uma incansável reunião no fim do dia.

Esta carta me arranca lágrimas a cada vez que leio, e leio muitas vezes, e sempre vou ler, como sempre vou reviver cada minuto difícil no atelier, que por mais difícil que seja se faz sempre único, mesmo multiplicado em outro — daqueles fora do que não sei nominar, fora do que me deixa em tensão máxima, com o coração acelerado apenas por sentar à mesa do almoço ou por não apreender nada do que está acontecendo — mesmo apreendendo, através do choro, gargalhada ou mesmo um texto do qual nada sei. Saber-me mídia, confundir-me com uma plataforma — não quero nada mais que isso, mesmo que eu não seja o ator principal desta plataforma, quero sê-la, e só através de Rubens que percebi ser isto possível. Toda energia que passa por mim pode ser visível — pode ser transformada, como princípio básico de tudo que é energia — palavra que designa tudo que acontece dentro de um trabalho — que eu posso ser meu próprio objeto de trabalho.

Posso estar falando absurdos completos, mas alguns fragmentos da carta de Rubens me tiraram o chão e mesmo que não sejam politicamente corretos eu quero muito dizer porque:

[…] Acho que somente gostaria de ser eu, perdi o fio da meada, gostaria de ser uma pessoa importante para mim mesmo — neste negócio de me importar para mim, esbarrei neste negócio de importar para o outro […]

Como alguém que quer ser o que se é perde o fio da meada, considerando que há um desejo claro proclamado? Desejo forte esse que, mesmo tendo aberto caminho para seu inverso, não o expeliu! A vírgula dita que esse desejo deseja perder-se em vez de estar perdido.

Se a vírgula estivesse 1 cm antes:

acho que somente gostaria de ser, eu perdi o fio da meada

Assim, o sentido do fio perdido parece estar fechado naquele de alguém que está perdido pelo fato de implorar ser alguém

Mas, na frase

acho que somente gostaria de ser eu, perdi o fio da meada

Parece que está implícito um e nisto, sendo a frase completa:

acho que somente gostaria de ser eu, e nisto, eu perdi o fio da meada

Pois Rubens não queria ser alguém, mas ele mesmo, a única chave mestra para abrir a porta de outrem — ou outras portas que não a dele, pois a dele já fora aberta — porque ele é o que ele não quer dele mesmo como ele diz no texto; seu desejo virou outro e não deixou de ser ele. Ver isto diariamente é estonteante!!!

Além disto, em Acho que gostaria de ser eu, não há um sujeito explícito; ou seja, quem gostaria de ser eu, Rubens, o mestre, ou alguém não citado no texto?

[…] O mestre, se é que ele existe em mim — me ultrapassa, realmente não sei nada dele, ele me violenta de maneira tão dolorida que tem horas que meu semblante pesa uma tonelada, me sinto tão pesado como uma locomotiva que nunca mais poderá se mover, porém no dia seguinte acordo e estou leve como uma pluma, não tenho um controle disto, muito menos posso elaborar porque faço isto […]

Rubens, ao ocupar — ou ao ser ocupado — pelo mestre — palavra que designa alguém que sabe algo com maestria, e que detém técnicas para poder recriar esse algo do qual tem conhecimento — simultaneamente põe-se em estado de dependência que uma criatura tem — simultaneamente ao depender disso, duvida também disso — ao admitir que fora criado para este lugar — em vez de ter sido ele uma criação sua — e que ele mesmo parece estar diante de um criador, de um outro mestre — do qual ele afirma com todas as letras não saber nada — cuja locomotiva se estacionou em seu semblante — indo embora depois, abandonando-o e, com esse abandono, transportando-o:

vocês me transportam para o inimaginável de mim […]

Deixando-o ser uma pessoa vazada, em falta [tenho uma dívida impagável com cada um de vocês] e é com essa falta que Rubens define sua própria existência:

Não existo sem o que me atravessa […]

Recuperando, com um fôlego de dois absurdos parágrafos de dezessete linhas — que se igualam a uma vida de cinquenta anos — a definição perdida de nós, Rubens se identifica a esse constante vazamento e atravessamento. Antigamente, perguntava-se a uma pessoa doente O que está lhe faltando? , enquanto hoje perguntamos o que ela está sentindo — parece que preenchemos essa falta com dores, com sentimentos em vez de deixar que ela seja o que ela mais precisa ser: vazia.

CCS, 20 de julho de 2017

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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