Análise da tradução do poema ”Riflessione” de Giorgio Caproni por Rubens Espírito Santo

Riflessione

Fu anche detto: Noi

Viviamo su um mostro

Ecco um motti che tutti

Potremmo far nostro.

(La Besta che bracchiamo,

È il luogo dove ci troviamo)

Giorgio Caproni

Reflexão

Cada um vive seu monstro

Estampado na própria cara

A besta que emboscamos é o lugar por onde somos

Tradução de RES

Esta tradução de Rubens, como várias de suas traduções, me chocou muito. E eu não paro de pensar — ou sentir — nela desde o dia em que Res a traduziu. O jeito que posso falar da aula hoje é falando desta tradução — a aula teve vários tópicos pelos quais eu posso me fascinar, mas talvez não escrever sobre. E talvez hoje eu consiga me autorizar a escrever sobre Rubens, mesmo com todo o fascínio que ele exerce sobre mim ­– e toda dificuldade de compreensão intrínseca a ele — ele me força a escrever, mesmo que eu não entenda nada.

A última frase deste poema, tanto no original quanto na tradução para o português da tradutora Aurora Fornoni diz a besta que emboscamos é o lugar onde estamos; na tradução do Rubens, ele troca o verbo estar por ser; além disso, complica um pouco mais com a preposição por. Ou seja, literalmente ele diz que somos através de uma emboscada. Implicitamente, parece estar que escrito também um somente: só se pode ser algo através desta emboscada que é a besta que se estampa na nossa cara.

Uma coisa que pensei é que eu, por exemplo, sempre estou em algum estado ou me forço a estar em estados — acho que todos fazem isso o tempo todo, para se concentrar, ou relaxar, ou socializar, enfim. Contrariamente a isso, Rubens parece não estar em um estado para depois sair dele, para depois entrar em outro estado noutro momento, e assim sucessivamente; antes de precisar chegar nalgum lugar, ele É ESTE LUGAR. Ele parece não precisar subir ou descer patamares para atingir algum lugar idealizado ou buscar recursos externos a ele: assustadoramente, ele é este próprio lugar não ideal, ele atingiu o seu próprio lugar — o que parece ser incrível, pois parece que, de uma forma ou de outra, sempre estou tentando atingir um lugar que não é meu — e por isso ele fala sua própria língua; talvez por isto também seus textos são tão incompreensíveis — ele parece falar a língua deste lugar que ele é — pelo qual ele é -, que obviamente não é individual do Rubens, mas um lugar que existe há séculos em que estão pessoas que também ERAM-NAS ou simplesmente eram: alcançaram a si mesmas — sem precisar subir ou descer — sem se traírem. É como se Rubens tivesse, ao longo dos anos, cavocado na trama da realidade um buraco para que pudesse adentrar, para entrar no jogo, para não ficar do lado de fora dele, para que seu corpo não precisasse empurrar outras coisas para se fazer presente, mas tivesse seu próprio espaço como que delimitado para que sua existência se desse sem ser comprimida por um espaço em que ele não coubesse. E estando neste estado, não parece haver a necessidade de ficar alterando seus estados para se conseguir fazer uma coisa ou outra — pois já está nO estado em que se tem que estar — e ele é nada menos que real!

Por isso, o verbo estar não se aplica a Rubens; apesar de, contraditoriamente, aplica-se absolutamente, pois Rubens é o único da aula de hoje que compreende sua completa transitoriedade, toda a excelência implicada no verbo estar.

Além do verbo da frase e da inversão que Rubens faz ser magnífica, há outra parte da frase que é a emboscada. Justamente porque no fim da frase, parece que ele concluiu ser ele mesmo, que ele alcançou seu próprio lugar para falar sua língua original; como ele conseguiu concluir isso, porém, através de uma traição, de uma cilada, de uma emboscada!? Isso parece se relacionar com tudo que Rubens fala todos os santos dias sobre desconfiar de si, sobre se dessolidarizar-se de si, de ser ridículo, de olhar o outro; coisas que tenho certeza das quais ainda precisarei de muito tempo ouvindo para que possa ouvir mesmo. Res diz tudo isso, porém, coligido, encapsulado, numa única frase elegante e chocante ao mesmo tempo; num soco, num trovão que só me dá energia em vez de tirar. Ele diz isso não só neste poema, como ele é esse dizer o tempo todo — ele é sua própria palavra — mesmo que não a diga — mas inventa infinitas e incansáveis formas para fazê-la se dizer — mesmo que ela fique quieta — ele a suporta — sendo seu suporte — seu lugar — seu tempo.

CCS, 19 de junho de 2017

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