Análise da fábula A história de uma mãe de Hans Christian Andersen

CCS, 17 de setembro de 2017

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Hans Christian Andersen, autor de O patinho feio

Há alguns momentos — feitos de uma luz obscura e clara ao mesmo tempo — em que, mesmo que parcialmente, parece que entendo — ou melhor, sou obrigada a entender, dado que algo se entende em mim — um pouco da necessidade do sacrifício. A palavra entender, sem dúvida, não é adequada para estas situações, pois nelas, não há possibilidade de entender mais nada de modo racional; justamente a gramática é o que mais se afasta de mim, de modo que eu passo a não mais reconhecer os nomes das palavras, vendo apenas seu reluzente brilho: elas passam a se encontrar dispersas, como cacos quebrados há mil anos. Minha fala sempre lacunar mostra que elas me estão vedadas, além de quebradas, e talvez a única coisa possível de uni-las seja mesmo um sacrifício que, como uma cola — que só aceita ser fabricada com minha própria vida — poderia unir as palavras perdidas, a fim de unir-me à vida que recebi — da qual ainda não tomei posse, porém — e que, contiguamente, colaria os próprios pedaços fragmentados de meu corpo fraturado.

Li a fábula História de uma mãe de Hans Andersen através de sua difícil luz — difícil porque cega — e só assim ele me disse muitas coisas.

Uma mãe, ao velar seu filho doente em sua casa, de repente recebe a visita de um velho para se abrigar do frio. Este, ao ser questionado pela mãe, duvidosa sobre conseguir segurar seu filho dormente — talvez não só corpo, mas também sua vida -, o velho a responde de uma forma que pode guiar nossa leitura:

E o velho, que era a Morte em pessoa, fez um movimento tão esquisito com a cabeça que não deu para entender se estava dizendo que sim ou que não.

Acredito que a personificação da Morte na personagem velho aqui indica talvez uma necessidade de depositar essa luz que citei numa forma, num depositário humano, para que ela tome emprestado uma concretude que não tem; caso contrário não seria possível abordá-la, devido ao seu caráter claro-escuro — ambíguo, portanto. Esta ambiguidade se mostra na indecisão do aceno da cabeça do velho — indecisão não como fraqueza, mas como único recurso para abordar o suposto paradoxo da vida que a personagem Morte aqui tem — e sua capacidade vivificadora de estimular a mãe a decidir pelo sacrifício — ou a vê-lo como única opção — afinal alguém só pode renunciar de algo quando o possui, mesmo que por poucos instantes, o que ela perceberá pela atitude pedagógica da Morte — personagem o qual, de morte, nada tinha.

Disposta a encontrar o lugar da Morte para conseguir salvar seu filho roubado pelo velho, a mãe se depara com diversos personagens que exigem coisas dela em troca de lhes falar o caminho correto. Uma delas é a Noite:

[…] Mas antes que eu lhe diga [para onde a Morte foi], você precisa cantar para mim todas as canções que cantou para seu filho! Eu gosto delas, já as ouvi antes. Sou a Noite, vi suas lágrimas enquanto você as cantava.

Ao ter sido questionada sobre o paradeiro da Morte, a Noite exige que a mãe cante para ela. Mesmo estando completamente desprovida dessa capacidade, a mãe encontra esta capacidade — a mãe torceu as mãos, cantou e chorou, e foram muitas as canções, porém muitas mais as lágrimas — talvez essa incapacidade seja a única coisa que poderia fazer ela cantar de fato — e então abrir seu caminho para onde desejava ir.

Logo depois ela encontra um lago impossível de ser atravessado, que diz:

Eu gosto de colecionar pérolas, e seus olhos são as duas pérolas mais puras que já vi. Se você chorá-los para mim, carrego você até a grande estufa onde a Morte vive e cultiva árvores e flores — cada uma delas é uma vida humana!

Esta fala do lago para a mãe indica a necessidade que ela teria de ter novos olhos para poder traçar o caminho em que foi lançada pelo seu desespero; seus olhos habituais não serviriam para isto, eles estavam por demais intoxicados dela mesma, haviam visto sempre a mesma coisa — estavam viciados em sua estrita visão. Aqui, o lago mostra a necessidade de transformação e de abandono de si para uma incorporação de algo estranho — atitude a qual ela já mostrou ser capaz de fazer, quando no começo da história, literalmente dorme na frente do velho (que era um estranho) segurando seu filho. Se a mãe realmente quisesse chegar a terras desconhecidas para salvar seu filho — ou a si mesma — teria de passar a enxergar tudo com outros olhos — mesmo que eles estivessem ausentes.

A ambiguidade da Morte, já prevista pelo esquisito aceno da cabeça do velho, desemboca nas duas vida que a Morte apresenta para a mãe quando esta a encontra — uma feita de dor, outra, de alegria — as duas opções possíveis para o futuro de seu filho. A mãe, sem olhos, porém agora incumbida de canto, pede para que a Morte esqueça todo seu desespero — ferramenta poderosa o suficiente para ter a levado até ali — e leve então seu filho — para um lugar o qual ela nunca viu — seus novos olhos indicam isso — sem ter, portanto, nenhuma garantia positiva de resposta.

- Não me escute, se peço alguma coisa contrária à sua vontade, que é a mais alta! Não me escute! Não me escute!

E inclinou a cabeça até o chão.

E a Morte levou seu filho para a terra desconhecida.

Acredito muito fortemente que Andersen não está falando exclusivamente de uma mãe; mas talvez de sua própria história, da condição de ser artista — podemos facilmente trocar a palavra mãe por artista e filho por obra -, do sacrifício que este empreendimento exige, mesmo que de forma gradual — como ocorre com a mãe: primeiro perde o apego de seu desespero, quando tem de cantar para a Noite; depois, os cabelos; depois, os olhos e depois a vida — para que seja possível então criar, da renúncia de sua vida — que é viciada nela mesma; é portanto estéril — uma outra vida — que é a própria obra.

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