Uma troca de cartas entre Aby Warburg e Andre Jolles sobre Ghirlandaio

CCS, 3 de junho de 2019, Aula de segunda de RES

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O nascimento de São João Batista, Domenico Ghirlandaio

Para penetrar nos segredos mais profundos da natureza, é preciso não cansar-se de pesquisar os extremos opostos e conflitantes das coisas; encontrar o ponto de unificação não é o mais grandioso, mas desenvolver a partir dele também seu oposto, este é propriamente o segredo, e o segredo mais profundo da arte.

Schelling, Bruno ou Do princípio divino e natural das coisas

Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele.

Mateus 11:12

É preciso distinguir duas espécies de causas, uma necessária, a outra divina, e procurar a divina em todas as coisas, para a aquisição de vida bem aventurada, na medida em que nossa natureza o admite.

Platão, Timeu, 68 e6–69 a1

Quero investigar algo na construção desta última citação (deixando claro que a investigação dela aqui é sobre sua tradução, ou seja, a língua portuguesa, e não sobre a língua grega em que Platão escreveu, pois a esta eu não tenho acesso, por vários motivos. Deste modo, uso a frase dele como isca não para pensar no que Platão quis dizer, pois isso não seria possível, mas no que posso ler a partir dela hoje).

Nesta passagem, parece haver um truque: primeiro, há a clara distinção entre a coisa chamada divina e a coisa chamada necessária. Logo após isso, há a afirmação de que a coisa divina deve ser procurada em todas as coisas. Ou seja, que a presença da coisa divina deve ser necessitada. Reformulado assim a frase, teríamos que há a distinção entre duas espécies de causas: uma necessária e uma necessitada. E o que é algo que é necessitado?

a) Substantivo

Ele é um necessitado. = Ele é uma pessoa carente do necessário. Ele tem necessidade do necessário.

b) Adjetivo

A comida é necessitada. = A comida é requisitada; é pedida; é obrigada a existir. O necessário é necessitado.

Me parece, ao reformular a frase, que não há diferença entre o que é necessário e o que é divino. Porém a frase inicial pontua esta diferença. Penso que ela não reside exatamente nos conceitos, mas permanece na epistemologia de quem os formula, sendo que esta formulação não é teórica, mas sim a condução de uma vida, podendo ela ser bem aventurada, como quis Platão, ou não.

A partir disto, pode-se ver o quão importante é a epistemologia — ou a visão de mundo, a forma de conhecimento das coisas — e como seu papel é decisivo. A epistemologia que divide cenários em extremos opostos não parece ser real, como vimos no exemplo que tenta afastar diametralmente necessidade de divindade. Talvez esses afastamentos que fazemos sejam para se manter numa superficialidade de conhecimento, pois parece não haver modos de se obter um conhecimento profundo, sagrado — de algo que se localiza em territórios novos, de algo enfim que se desconhece — sem que esse conhecimento seja angustiado, pois ele arrebata, antes de tudo, os limites da razão, que é algo confortável — e inclusive limitador. Um conhecimento outro, um conhecimento que não é cumulativo, é desconfortável: não adiciona informações, mas executa a operação inversa, tirando as certezas daquele que se propõe a não mais seguir os caminhos transitáveis [1], como faz a ninfa de O nascimento de São João Batista de Ghirlandaio. Não nos esqueçamos que a ninfa é dotada de um […] um saber líquido, fluido, ao qual o deus vai impor seu ritmo [2].

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Figuras gélidas e estáticas da tela de Ghirlandaio

Em sua carta a Warburg, André Jolles nos revela que a serva se situa neste outro tipo de conhecimento como um ser suspenso no ar. Se este tipo de conhecimento é tão angustiante, como sua aparência nos chega aos olhos tão leve e flutuante, diferente das outras figuras, gélidas e estáticas? Como alguém que assume dimensões de um fascinante pesadelo [3] pode ser também o objeto dos seus sonhos?

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A doméstica — a ninfa

Podemos ver aqui a ninfa apenas como uma figura lendária, distante, presente apenas em histórias fictícias e antigas, que nada têm que ver com nosso mundo contemporâneo, desresponsabilizando-nos do poder da invenção do divino e mantendo-o numa esfera à parte de nossa necessidade — sendo levianos, inclusive com aquilo de que necessitamos (pois dizer o divino é necessário não necessariamente implica na volta desta frase: o necessário é divino. Se houvesse uma fusão das responsabilidades, eu poderia enxergar minhas lacunas assim, e estas estariam certamente um pouco mais resolvidas — talvez eu teria mais lacunas — e mais espaço). Porém, podemos também vê-la como a representação de algo que pode ser por definição a coisa mais próxima de nós — ao passo que invariavelmente é a mais distante: o fundamento de um ser — e este não tem época certa para existir, dado que a história se dá a partir do início da existência do homem. Chegar a este fundamento — que inclusive não parece ter fundamento, dado que é sem lógica — parece, realmente tocar o proibido. Afinal, nada mais permitido e deliberado do que reclamar sobre a miséria! — superá-la parece tão absurdo que equalizaria noções opostas: alcançar a liberdade ou estar numa prisão, fazer o bem ou consumar o mal parecem ser noções que realmente não limitam o vazio imperante deste lugar.

Este fundamento — esta origem — esta infância — este pré-estado — onde certamente opera uma lógica muito diferente da recorrente lógica binária — aparece iluminado na figura de Ghirlandaio, a doméstica encantadora — que, como um ser “necessitado” parece realmente ver o mundo à sua volta como tudo o que ela precisa — como um ser à beira da morte, leva os frutos em sua cabeça como coisas que realmente são sua salvação, pois ela é necessitada deles — vinda da fissura do céu, como um raio, que ilumina e traz a morte, ela não hesitaria em matar caso isto fosse o necessário — pois isto seria, assim, o divino.

Talvez todo esse caos proveniente do lugar da ninfa seja o mesmo lugar do qual provém o gênio. Neste lugar, tão próximo do fogo interno que queima de longe, conversar com o destino é possível pois ele está nele inserido e ele é sem lógica nenhuma — o gênio só o é por estar neste lugar ambíguo, de origem e de morte simultaneamente.

[…] O gênio se angustia numa hora diferente dos homens comuns. Esses só descobrem o perigo no instante do perigo, até então se sentem seguros, é uma vez passado o perigo estão seguros novamente. O gênio está mais forte que nunca no instante do perigo (já sua angústia situa-se no instante anterior e no instante posterior), nesse momento tremendo em que ele precisa ter uma conversa com aquele grande amigo desconhecido que é o destino. Talvez a maior de suas angústias se dê no momento posterior, porque a impaciência da certeza cresce sempre

numa proporção inversa à certeza da distância, já que sempre há mais a perder a proporção que se está mais próximo de vencer, mas também porque a lógica do destino não tem lógica nenhuma.

Kierkegaard, O conceito de angústia, Editora Vozes de Bolso, pág 109

Neste lugar, são partilhadas as raízes das flores do mal e as do jardim da infância — o gênio atinge a criança, a origem, o último estágio da três metamorfoses de Zaratustra, sua ficção sustenta vidas — ficção essa dantes sustentada — agora, inflamada, sai do horizonte estático — no qual estamos paralisados — até explodir os limites do balão burocrático de ser arte — para enfim voar com a ninfa e se tornar afirmação imperativa de ser sempre outra — de ser viva.

A ninfa não está escondida como quis acreditar — ela não está menor agora — pois, um dia, quando eu tiver mais “disponibilidade”, ela vai aparecer — não, ela está visível no meio-fio — sua sombra foi atropelada pela minha vontade — um acidente à luz do dia — ela anda por trilhos invisíveis para mim — ela não se esconde mas é camuflada — ou melhor é despedaçada sempre que a procuro longe da necessidade de todos os dias — ela é tão presente — e ao mesmo tempo tão presa neste tempo fora do tempo, tempo este capturado pelo gênio — neste futuro que apenas geograficamente pertence ao passado mas não temporalmente — ela é tão voraz quanto um minuto do relógio — pelo qual eu passo sem saber que horas sou.

[1] A ninfa: uma troca de cartas entre André Jolles e Aby Warburg em A Presença do Antigo, Aby Warburg, Editora Unicamp, pág. 68

[2] Roberto Calasso, Os deuses e a literatura, Companhia das Letras, pág. 28

[3] Idem nota 1

Bibliografia

Aby Warburg, A presença do Antigo, Editora Unicamp

Kierkegaard, O conceito de angústia, Editora Vozes de Bolso

Nietzsche, Assim falou Zaratustra, Editora Vozes de Bolso

Roberto Calasso, A literatura e os Deuses, Companhia das Letras

Schelling, Coleção Os Pensadores, Editora Abril

Warburg: Banco comparativo de imagens: http://warburg.chaa-unicamp.com.br/obras/view/10922

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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