Na aula, falamos — forçamo-nos a falar — sobre uma questão que toca a todos: a de fazer-se público; de tornarmo-nos, efetiva e publicamente fazedores daquilo que fazemos em nossos dias: de nos assumirmos, através de ações pragmáticas, como artistas, escritores, fotógrafos ou seja lá o que for.

Penso que tomar atitudes assumidas assim são difíceis por serem elas coisas que extrapolam a esfera cotidiana, aquela da qual estou acostumada, mesmo que não queira; esta esfera é rodeada pelo meu senso comum, no centro do qual estende-se um confortável sofá onde minha bunda se acomoda preguiçosa, não vendo motivos para levantar, já que não se depositou sobre nenhum alfinete que a cutuque. Esta bunda, que inclusive não sabe se cutucar sozinha — não sabe se comunicar -, é, todavia, completamente insignificante, já que ocupa todo e qualquer lugar possível de significação, pois o ponto crítico de comunicação e a ausência dela são o mesmo. Por não saber se incomodar — nem mesmo com uma ausência de alfinete — não incomoda outrem; não comunicando, não provocando perturbações na realidade, não faz portanto parte dela, podendo ser apagada da realidade; assim, a bunda tautológica é perigosa e irresponsável, pois, ao mesmo tempo que está, ela não está lá; ela vê tudo porém não testemunha; ela não se move, sendo aquilo que mais tenho e mais me aproxima da minha própria irrealidade.

Na aula, ao ter que nomear minha principal atividade — portanto aquilo que pode vir a me nomear — vi meu incômodo ao ter minha fala cortada pela extrema dificuldade em pronunciar a palavra escritora. Ao tentar esquivar-me disso, forcei uma invasão da palavra estudante em sua frente. Esta atitude me deixou incomodada, porém ela não é de todo surpreendente, já que esta nomeação é algo que tem toda permissão para incomodar a bunda que não se deixa incomodar, da qual eu sou dona inclusive, o que faz de mim, também, algo que tem ainda muito de irreal.

Mesmo que eu consiga, um dia, pronunciar e assumir a atividade que me faz sentir mais viva, acredito que será este apenas um ponto de partida — como, na verdade, todos os pontos devem ser — todos os textos são constituídos de primeiras frases — o ponto final é assim fantasiado apenas para que eu finja que o texto acabou e aceite estar viva nos dias seguintes, não deixando de enfrentá-los para neles buscar novos, inéditos e autênticos pontos finais.

Acredito que, para sair da esfera da cotidianidade, como comecei dizendo neste texto, deve-se entrar numa outra esfera — que esfera seria essa, qual é a esfera que mora a escritora? Se, nela, os fatos não são mais cotidianos, deixam de ser familiares; são inéditos — como se entra numa esfera sempre inédita — se ela é inédita, como ficar nela?
Eu não saberia, obviamente, responder isto, pois esta pergunta refere-se à realidade em sua totalidade, e já concluí aqui que a maior parte da minha constituição é irreal, cuja metáfora é minha bunda sentada no sofá. Daí vem que o que me assusta, portanto, é justamente a realidade. Portanto, eu não sou ferida do real, mas sim da minha total irrealidade — o que se relaciona com minha dificuldade de me assumir como sendo o que sou -, da minha constituição fantasmática e anônima da qual nada floresce sem que eu violente qualquer acomodação; da qual os clarões que se acendem são apenas instantâneos, oscilando toda a atmosfera entre os costumeiros breu e sombra — como uma árvore procurando vento para que sua sombra mova-se até uma superfície clara — como acontece ao pôr do sol em que a sombra de suas folhas projetadas na parede de uma casa oscilam sobre ela, deixando a concretude desta parede mais leve e movediça — ao perceber momentos como esses — que inclusive me fazem escrever, ação que escondo na irrealidade mas que torna-me real — sinto minha esfera fantasma tornar-se um pouco mais dotada de realidade.

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CCS, Relatório feito após a aula do Curso do Méthodo por Anna Israel no Atelier do Centro,4 de outubro de 2017

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