A alucinação será florida se eu deixar

Estou alucinando enterrado em carne que brilha — minha própria carne sobre-humana, isto é, a mais pobre de todas, a mais permissiva, contaminada, infectada de um tempo que se faz a olho nu, um olho externo a mim, objeto de mim fora de mim, insinuando o deus morto de todos os meus sentidos amorfos — meus dedos tocam o todo nadinha de uma matéria viscosa, nojenta, sou só eu em estado nenhum — desestado de mim — dessituado de mim ainda sou eu — ainda que agora solto — meu braço está solto, desligado do membro principal — ele circunda o horizonte, escorre pelos rios invisíveis da natureza — o que não sou eu definidamente se instalou em mim. Estou seguro que não sou nem um resto do que já fui.

Res, O homem com um resto de charuto no bolso interno do casaco, 18 de janeiro de 2017

O caminho tortuoso desse texto pode ser vislumbrado pelas aparentes extremidades em que se encontram seu começo e seu fim: ele começa com a afirmação estou alucinando e termina com a afirmação estou seguro. A alucinação, após passar pela parte mais pobre de todas que, infectada por um objeto externo, denuncia a falsidade dos sentidos, deixando-me em estado mais solitário de todos — abandonado por meus sentidos — eu acreditava tanto neles — mas minha alucinação me tirou deles — precisou, para isso, arrancar meu braço, por onde eu os sentia — abandonado pelo que eu acreditava, posso estar seguro de ser algo — algo diferente daquilo que era no começo não só deste parágrafo mas de minha existência ou daquilo que minha sabedoria de mim já pensou — e então, a vida pode ser renovada — pode existir uma respiração mais profunda e completa — Res pode ser atemporal pois sabe-se efêmero.

Por que a alucinação passa pela parte contaminada, infectada, permissiva? Sem que haja um feitiço ditador de caminhos, não há como não passar pela parte lamacenta — até porque ela não é pequena — muito menos uma área da qual alguém deveria querer se salvar — mas antes de qualquer coisa, impregnar-se dela — assim não haveria mal entendidos — tendo lama, pode-se fazer poesia.

O caminho que este texto faz é tortuoso pois ele se dá numa região que sabe e assume sua impenetrabilidade — é violento pois ele exige que, ao menos por alguns instantes, eu também expulse as partes falantes de mim — e as transforme — ou inaugure — as partes mudas — impenetráveis — incomunicantes mas não incomunicáveis — para que possa haver uma comunicação entre regiões que não sabem falar.

Este texto não difere das aterrorizantes afirmações na aula de Rubens sobre o fato de a espiritualidade não estar na escrita — mas no contexto de sua inserção; a primeira situação pode ser aquela em que meus sentidos já se identificaram como crentes dela — e justamente por isso podem enrijecê-la. O que Res me faz ver é: já que posso possuir a capacidade de acreditar em algo, por que não acreditar em algo no qual não acredito? Na mira de um alvo movente, talvez seja possível não criar novas crenças, como se esperaria — mas novos lugares para arremessar as minhas crenças atuais — para que então elas possam viver — livres de mim — de uma sociedade autorizada por mim — em desestados — dessituados de mim — e, numa infância selvagem, não precisarem mais contestar qualquer tipo de racionalidade pois dela prescindem — nascem de sua fulguração — de sua alucinação — e não mais pensando nelas, quem sabe eu consiga regar e deixar florescer seu jardim.

As coisas não podem continuar assim –

trincheiras com travesseiros

e barricadas com latinhas de sardinha –

se eu comesse aquilo que tiver fome

não teria forças o suficiente

para comer aquilo que sempre quis me comer –

se eu fosse mastigada

aprenderia que não dá para lutar

de barriga tão cheia –

assim ela nunca saberia

que se estivesse vazia

poderia ouvir

os pedidos do ar –

o nariz não se contentaria

em estar só rachado

e não deixaria

a cabeça quebrar e se abrir –

pegar um ar

Dizem por aí que sonhar é de graça -

que sonhar liberta

O problema é quem sonha

não se liberta do próprio sonho -

só o sonho anda livre

de quem sonha em sonhá-lo

e não o sabe vivo

dentro — e fora –

de si

20 de fevereiro de 2018

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Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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