Poema em resposta à pergunta de @anafrancotti

Páginas –

colunas pétreas

ao tentar virar

Capa –

sonolência insone

ao tentar ouvir

Guarda —

porta emperrada

ao tentar abrir

Lombada —

perna que mal dobra

ao tentar subir

Partes veladas de um livro

que em coro, exige tanto quanto seu segredo:

deixa de venerar distantes astros vagabundos

e os faz descer para terra firme –

se queres fazer parte do sublime

não te esquiva do poder do crime!

22 agosto 2020


The priest puts on a different cassock every day. He confesses in the movement of putting it on and taking it off. He does not know how to give proper advice when someone comes to him, but he knows that he bears the most improper sayings in him — claiming to be more than he usually really admits to himself.


Todas as manhãs Charlote bebia água morna

e vestia apenas um casaco

de penas de avestruz

no calor ela não usava nada por baixo

e no frio ele a esquentava bem

Ainda de manhã ela assistia

pela janela as flores

se inclinando sob o vento

e desejava que seu corpo

fosse ou soubesse fazer

umas curvas daquelas também

O que ela mais gostava –

era do vento tocando seu corpo

sem encostar nele

Quando ela vê os dois –

flor e vento dançando –

tinha certeza de que nunca

havia amado alguém

Ela não conseguia acreditar

em nada que levasse mais…


Era segunda feira, um dia depois que Iara encontrou Vanderlei; seus encontros secretos aconteciam já havia dois meses. Ele era comprometido seriamente com outra mulher e não tinha pretensões de terminar seu relacionamento. Iara sabia disso, porém este duro fato não a impedia de sentir tantas coisas por Vanderlei quando se sentava para tomar um café numa padaria de Calibã.

Da noite passada, sobrou um cansaço que ficou impregnado ao corpo de Iara juntamente com resquícios de entusiasmo que agora deixavam seu corpo trêmulo, como que querendo se esfarelar no ar, fato ao qual ela tentava não dar atenção. …


Elsevier tinha um grande objetivo na vida: tornar-se um grande empresário. Para isto, tinha determinado diversas listas, metas, contratado muitos funcionários e estudado muitas pessoas que já tinham alcançado este objetivo.

Porém, ele tinha certos defeitos — ou qualidades — que lhe retardavam a chegada de seu objetivo tão bem delineado. Ele era uma pessoa completamente afeita à paisagem que se encontrava e, a partir desta, tinha grandes comoções e compreensões da realidade, tornando-se incapaz de voltar à sua costumeira prática juntamente a seus afazeres diários.

Certa vez, numa viagem que fez ao interior num fim de semana, enquanto andava perto de uma cachoeira e viu aquele fluxo de água caindo, percebeu como inúmeras gotas de água caiam ali para que acontecesse o fluxo; elas caiam violentamente, não sabia se era uma força que elas faziam ou que elas sofriam; para que elas caíssem, como um suspiro saindo de uma boca de uma mulher cuja força é suficiente apenas para que ela tire o fio de cabelo que lhe atrapalha a visão, sendo assim o suficiente para ela continue se sentindo bem. Nesse suspiro, nessa simultânea reunião de forças que a água fazia para cair e a mulher para ver, Elsevier sentia que seu coração estava sendo manifesto, que seu silêncio não era um ato de contemplação da realidade mas um ato de extrema atividade e comunhão com ela; Elsevier fazia, então, parte da realidade. Toda essa emoção lhe dava espasmos no corpo e ele andava deixando que todos os espasmos saíssem, pois ele não os aguentaria dentro de si. Seu andar era, portanto, o andar de alguém completamente louco, cujos braços estremeciam e pernas pulavam vez ou outra. Elsevier sentia que esta paisagem era feita apenas para que ele pudesse existir, nem que por um pouquinho de tempo, e pudesse consumar sua existência, dar sentido à sua vida, um sentido completamente vazio de sentimento e significado. …


“Moro sozinha” era o que ela falava,

Porém, com sombras seu apartamento dividia

As quais, descaradamente, ignorava

“Elas não têm nada a ver comigo”, dizia

Sem querer, se misturava a elas

E numa escuridão sem fim –

Não só quando anoitecia

Mas também antes e depois

Sempre cansada, mesmo quando dormia

Durante alguns meses — de terror

Foi obrigada por forças maiores

a conviver com esses seres escuros

que habitavam de dia

o fundo de seus armários –

o fundo de seus olhos

Na contramão do vazio

deixado em seu país

Maria sabe agora o que é ter companhia

E cuidando bem dessa eterna…


Um das coisas mais difíceis que tenho ouvido e também sentido a respeito da quarentena é a solidão compulsória. A dificuldade de se estar num cômodo sozinho, de se encarar como uma companhia. Por que esse medo nos assola, tanto ou até mais do que o medo de ficar sem coisas materiais, como comida ou dinheiro (ou mesmo por projetarmos este medo na possível perda de coisas materiais)? …


I

– Na madrugada, as folhas das árvores estão pesadas de sereno.
– Como muitas pessoas, também na madrugada, ficam pesadas de culpa.
– Porém, ao longo do dia, a profusão brilhante de raios de sol as seca até que venha o cair da tarde e o orvalho as pese de novo.
– Ouvi dizer que, ao se pôr o Sol, em alguns poucos, se põe também a doutrina da própria vontade.
– É só aí que eles podem ouvir, numa voz primal e inaudível à maioria, a frase: vem até aqui.
– Como irei até aí? Se aqui, onde poderia estar, já não estou mais? …


Abelardo,

No começo da noite, depois de uma conversa de mais de uma hora que parece desafiar não só o tempo mas o nosso fracasso em nos abandonarmos, permaneço numa hesitação entre começar a escrever e deixar de escrever para sempre — entre querer abrir a porta dos leões e lutar com eles e vê-los dançar ou a ligar a televisão e esquecer que um dia já existi. Não sei o que é esse estado febril que começa e toma conta do corpo mas que logo atravessa a rua sem se despedir. …


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Kerry James Marshall

– Why study? Why write? Why doing things that, normally, someone wouldn’t do just to survive? Why invent new habits?

– To enlarge what we understand for life.

– Why should I enlarge what I understand for life?

To enlarge what we understand for life doesn’t mean to understand more about life; that would be a goal that is too much pretentious now. In fact, the question about what we should enlarge what we understand for life only can be made by a person that is not actually alive; cause, if a person is alive, he would never ask why he should stay alive, but would only do what he can to stay alive. …

About

CCS — Caroline Costa e Silva

Vernacular / Escritora / Papelaria autoral / Atelier do Centro www.vernaculareditora.com www.instagram.com/ccsvernacular www.conglomeradoatelierdocentro.com

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